20 de novembro: mais que um feriado, um dia para nos lembrar de seguir lutando
20 de novembro: mais que um feriado, um dia para nos lembrar de seguir lutando

Por Deputado Maurici * e Elias Candido**

 20 de novembro não é apenas um feriado. Na verdade, em boa parte do Brasil, é um dia comum. Em diversos Estados, sequer um único município celebra oficialmente a data; até mesmo no Distrito Federal não é feriado. Isso porque a data já consta no calendário escolar, desde 2003, e no nacional, desde 2011, necessitando de regulamentação municipal e estadual.

A data remete ao assassinato de Zumbi, um dos mais importantes heróis brasileiros. Zumbi, dos Palmares.

A luta contra a escravização no Brasil começou no primeiro dia que os escravizados da África aqui chegaram. Fugas, rebeliões e outras formas de resistência culminaram na formação dos quilombos, locais onde os escravizados voltavam a serem livres, desenvolvendo suas novas comunidades, longe da terra natal.

O maior e mais famoso era o quilombo dos Palmares. Idealizado e fundado por Acotirene, mulher negra com uma história inspiradora, Palmares provavelmente foi a primeira democracia das Américas. Um espaço ecumênico, composto de negros, brancos, mouros, indígenas e por quem mais quisesse fugir da opressão colonialista e ajudar a construir um outro modelo de sociedade.

Mais de cem mil pessoas viveram livres lá, nos cem anos de sua existência. Palmares era até tratado como estado por nações estrangeiras.

O povo de Palmares sempre se preocupou com os demais escravizados. Os regates tinham estratégias e cenas de fazer inveja aos filmes de Hollywood.  Por esse motivo, foi alvo de crescentes ataques dos colonialistas, que tentavam derrubá-lo sem sucesso. Até a investida mais covarde, fortemente financiada, de Domingos Jorge Velho, com canhões e tropas de mercenários sem o menor escrúpulo.

Zumbi, ferido, escapou e continuou resistindo, até ser delatado por um companheiro que fora brutalmente torturado pelos facínoras.

Mas Zumbi não morreu em 20 de novembro de 1695. Sua merecida fama, que percorria continentes, é uma lenda viva até hoje; seu pensamento se tornou guia para todos os negros e as negras que se queriam (e ainda querem) livres; sua determinação, pedagogia para crianças e jovens.

Graças a seu legado, esta ideia de que uma sociedade democrática era possível se espalhou pelo mundo antes mesmo das clássicas discussões sobre socialismo na Europa.

A história apenas começou naquele dia 20. A luta continua e se faz necessária até hoje. É tarefa de negros e negras, brancos e brancas, indígenas, de todas as pessoas antirracistas, fazer desta data não somente um feriado, mas a base para a real construção de uma nação fraterna.

É fundamental que nos unamos em torno desses ideais. Os problemas daquele período não são muito diferentes dos atuais. Mulheres negras sofrem todos os tipos de violência e a polícia extermina os jovens sob nosso olhar complacente, movido a notas de repúdio, que não os devolvem às suas famílias.

Mas ainda não temos força para fazer justiça. É preciso mais braços, mais livros, mais ação e mais amor.

Precisamos nos organizar, principalmente no conservador e racista Estado de São Paulo, para enfrentar o atraso que a burguesia nacional e de mentalidade colonialista impõe ainda ao Brasil, mesmo com o enfrentamento que o povo desperto oferece.

Viva Zumbi!

*Maurici é deputado estadual em São Paulo, jornalista e ex-prefeito de Franco da Rocha.

**Elias Candido é professor, ativista social e cultural e militante de combate ao racismo da zona leste de São Paulo

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