A insegurança pública em São Paulo

04/02/2009 18:10:00

Violência

As cenas de violência registradas na Favela de Paraisópolis, na zona sul da capital paulista, na última segunda-feira, e as suspeitas de que o confronto foi ordenado de dentro das prisões por líderes do tráfico colocaram a violência em São Paulo nas páginas de jornais do mundo inteiro.

“Até o momento, o governador José Serra sequer se pronunciou sobre o confronto em Paraisópolis”, denunciou o deputado Enio Tatto em plenário nesta quarta-feira.

Mas, infelizmente, o drama da violência que atinge os moradores de Paraisópolis e em bairros vizinhos não é novidade, para a população de São Paulo. Nas primeiras semanas de 2009, ocorreram quatro chacinas na capital e Grande São Paulo, que deixaram o saldo de 15 mortos; 6 deles em um único episódio: uma chacina ocorrida no dia 23 de janeiro em uma viela da Favela Jardim Padroeira, em Osasco.

Em 2008, aconteceram no Estado 24 chacinas, que deixaram 82 mortos. Veja relatório dos casos em anexo abaixo. Os estupros, latrocínios – roubo seguido de morte – e roubo de cargas também aumentaram no último ano.

Segundo levantamento da própria Secretaria de Segurança Pública, o número de casos de latrocínios teve alta de 21% em relação a 2007, as ocorrências de violência sexual aumentaram 5% e as de roubo de carga, 2,45%.

Atrás da impressionante estatística da violência, há um dado silencioso em relação à segurança pública paulista: a criminalização da pobreza. Paraisópolis é um exemplo desta estratégia. Ocupada pela Tropa de Choque por tempo indeterminado, a favela enfrenta também a suspensão de serviços básicos, como Eletropaulo e Sabesp.

Considerada a região menos escolarizada da capital paulista, Paraisópolis sofre ainda com recorde de desemprego: 25% dos seus moradores estão sem trabalho. São mais de 60 mil pessoas excluídas em uma região de alto poder aquisitivo da mais rica cidade brasileira.

O espaço que deveria ser ocupado pelo Estado – com oportunidades de trabalho, moradia digna e serviços públicos de qualidade – está sendo preenchido pelas quadrilhas do tráfico, que tornaram-se uma opção para jovens sem escola e sem emprego.

Política de extermínio

Os jovens, aliás, têm sido, as maiores vítimas tanto do crime organizado quanto da polícia. Casos como o de Henrique Arnaldi, estudante de 18 anos assassinado pela PM em Piracicaba no dia 20 de outubro de 2008, revelam a política de extermínio adotada pelos que deveriam defender a população. Sem passagem pela polícia e estreando em seu primeiro emprego, com sua primeira moto, Henrique foi fuzilado em uma abordagem policial no bairro onde morava, gerando revolta e indignação entre vizinhos e familiares.

No ano passado, a polícia paulista matou, mais de uma pessoas por dia. Foram, em média, 32,8 pessoas por mês. Até setembro de 2008, 296 pessoas foram mortas pela PM paulista; só na capital, foram 174 casos.

Atrás dos boletins de ocorrência que falam em criminosos mortos em supostos confrontos com a PM, estão cidadãos como Henrique, cujo inquérito ainda não foi concluído, mas com testemunhas que não deixam dúvidas: o Estado matou mais um jovem da periferia.

As irregularidades no registro dos boletins de ocorrência têm sido alvo de denúncias na gestão tucana desde 2004. Especialistas em Segurança Pública, inclusive da própria Ouvidoria Geral da Polícia, confirmam a manipulação dos dados, que transforma registros evidentes de homicídio em outros tipos de ocorrência, como confronto ou ‘encontro de cadáver’.

Estas denúncias são motivo de preocupação na Bancada do PT já há alguns anos. Quando foi vice-presidente da Comissão de Segurança Pública da Assembleia, em 2007, o deputado Vanderlei Siraque, recolheu assinaturas para a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar a manipulação das estatísticas criminais.

A base governista obstruiu a instalação da CPI, mas Siraque e o deputado José Cândido ainda buscaram, através da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia, informações das chacinas, como o andamento das investigações  sobre a autoria destes crimes e a punição dos responsáveis.

A cidade de São Paulo tem até um triste símbolo desta política de extermínio: o Cemitério São Luis, localizado na zona sul da capital, entre Jardim Ângela e Capão Redondo. O cemitério carrega o estigma de ser o local com maior número de adolescentes sepultados por metro quadrado no mundo. São vítimas da violência urbana, dos bandidos e da polícia, que perderam a vida em chacinas, acerto de contas, brigas de bar e outras ocorrências, na maioria das vezes, não investigadas adequadamente.

 

 

 

 

 

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