Assembleia debate riscos de exposição ao benzeno

31/03/2015

Iniciativa do PT

Cefaleia, tontura, irritação à pele e olhos, distúrbio do sono, disfunção psicossomática, perda de memória e de percepção ao odor. Essas são algumas das doenças decorrentes da exposição ao benzeno, relatadas por médicos que estudam essa matéria há mais de 30 anos. O médico Danilo Fernandes Costa, especialista em medicina do trabalho foi o primeiro a abordar esse assunto, em audiência pública ocorrida nesta sexta-feira (27/3), sobre o benzeno e a saúde do trabalhador.

Sob a presidência do deputado Marcos Martins, a saudação aos presentes foi feita pelo deputado Enio Tatto. Ele fez referência à luta de Martins pela saúde do trabalhador, desde a fundação da Associação dos Expostos ao Amianto até a aprovação da Lei 12.684/2007, que proíbe o uso dessa substância no Estado de São Paulo. “Ele lutou também pelo banimento do mercúrio e agora empreende nova batalha contra o benzeno”, disse Tatto, ao mencionar o PL 247/2015, de autoria de Martins, que proíbe postos de combustível a abastecerem os veículos após o acionamento da trava de segurança. O deputado Gileno (PSL), participou da audiência.

Lei contra benzeno existe desde 1932

A informação foi dada pelo médico Danilo Costa, o qual relatou que, já naquela época, a legislação proibia a exposição de mulheres ao benzeno. Segundo ele, na década de 1970, essa lei tornou-se mais abrangente ainda, ao proibir a exposição dessa substância em ambientes domésticos. “Mas essa lei nunca foi respeitada”, afirmou, sugerindo que se não houver a maciça participação da sociedade, essa situação tende a continuar.

O médico relatou que o benzeno não permanece restrito às fábricas petroquímicas. Ao contrário, está disseminado pelos postos de gasolina e, portanto, expondo à sua toxicidade não só o frentista, mas qualquer consumidor que vá abastecer seu veículo.

Segundo Costa, há problemas em se relacionar a exposição ao benzeno às doenças, porque as empresas não têm por hábito fazer diagnósticos das gravidades que acometem seus empregados. Cenário diverso disso ocorreu apenas na década de 1980, quando uma grande pressão social acabou acuando as empresas. Nessa época, afirmou, houve uma epidemia de leucopenia, ou seja, redução dos glóbulos brancos no sangue, uma das consequências da contaminação por benzeno. Da década de 1990, não existe diagnóstico. Portanto, ele apresentou um levantamento feito entre 2004 a 2006, entre trabalhadores afastados junto ao Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS).

“Foram cinco casos de aplasia de medula e 14 de leucemia em postos de gasolina”, relatou, observando que só foram identificados os trabalhadores com carteira assinada.

Costa comentou ainda sobre a gasolina adulterada, assinalando que a adulteração era feita com solvente com alta concentração de benzeno. “A legislação brasileira recomenda 1,5% de benzeno, mas foram encontrados até 8% dessa substância na gasolina adulterada em São Paulo”.

O que é o benzeno e por que ele é perigoso

Ao expor aos presentes a periculosidade do benzeno, Arline Sydneia Abel Arcuri, doutora em ciências e pesquisadora da Fundacentro, observou que esse produto químico preocupa o mundo há mais de um século. Contou que o benzeno é o quinto produto mais usado no mundo. Sua periculosidade deve-se a algumas características (odor agradável, é líquido, volátil, altamente inflamável, explosivo, não polar, ou seja, não tem carga elétrica nas pontas, e lipossolúvel) que, aliadas à toxicidade o tornam perigoso.

O benzeno pode penetrar no corpo humano através da inalação e mesmo contato direto, quando frentistas utilizam flanelas e panos molhados com gasolina para limpar o tanque de combustível dos veículos. “Quando colocam esses materiais molhados com gasolina sobre o braço ou pescoço, invariavelmente acabam se intoxicando”, alertou.

Segundo Arline Arcuri, a exposição a longo prazo, em concentrações menores, acaba se acumulando na medula óssea, atingindo as células do sistema formador do sangue. Assim, pode ocasionar vários tipos de cânceres.

“Um dos primeiros sintomas dessa concentração é a leucopenia – diminuição de glóbulos brancos -, mas, hoje, sabe-se que o benzeno afeta qualquer tipo de célula sanguínea”, acentuou Arcuri.

Ela alertou para o fato de que não há limite seguro para a exposição ao benzeno. Portanto, qualquer concentração pode desencadear uma doença. E também quem pode ser afetado pelo benzeno: em postos de gasolina, não só frentista, mas os demais trabalhadores desse local, o consumidor, os mecânicos, os pintores, os motoristas.

Abastecer só até o automático

“Não passe do limite; abasteça até o automático”. Esse é o mote da campanha lançada no último dia 18/3, em várias regiões do país. A química e farmacêutica Neli Pires Magnanelli, técnica de ações de saúde da secretaria estadual de Saúde, falou sobre essa campanha educativa, destinado a promover o abastecimento consciente de veículos nos postos de gasolina. Explicou que o objetivo é orientar os trabalhadores dos postos de combustíveis sobre os danos à saúde, provocado pela gasolina, quando seus vapores são inalados durante o abastecimento. E informar a população, principalmente os condutores, sobre os danos provocados aos veículos e ao meio ambiente quando se abastece além do travamento automático da bomba, isto é, “até a boca”.

Magnanelli esclareceu que a gasolina é composta por várias substâncias químicas perigosas à saúde e essa mistura de hidrocarbonetos pode desencadear nos indivíduos expostos a seus vapores, câncer, defeitos genéticos, prejuízo à fertilidade e ao feto.

Telma Cardia, presidente do Sindicato dos Frentistas de Guarulhos e Região, classificou o benzeno “como uma desgraça para os trabalhadores; quando a gente consegue avançar, enfrentamos o entrave do setor patronal”. Defendeu a prevenção aos que se expõem a essa substância química, principalmente para as mulheres frentistas nos três primeiros meses de gravidez. Declarou que casos de frentistas mulheres que adoeceram nunca tiveram explicações para a origem de sua doença.

Cardia acentuou que trabalham no Estado de São Paulo cerca de 100 mil frentistas, sendo 70 mil com carteira assinada. Desse total, 30% são mulheres.

Fonte: Portal Alesp

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