Comissão da Verdade ouve depoimento dos casos Luiz Almeida Araújo e Issami Nakamura Okano

26/02/2013

Nesta quarta-feira

Dando sequência a série de depoimentos que estão sendo colhidos pela Comissão Estadual da Verdade, presidida pelo deputado Adriano Diogo, nesta quarta-feira (27/2), às 10 hora, será a vez dos casos Luiz Almeida Araújo e Issami Nakamura Okano.

Na quinta (28/2), também às 10 horas, serão os casos de Davi Capistrano, Elson Costa, Hiram de Lima Pereira, João Massena Melo, José Montenegro de Lima, José Roman, Luiz Ignácio Maranhão Filho, Nestor Vera e Walter de Souza Ribeiro.

As audiências acontecem no Auditório Teotônio Vilela, na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo

Casos de Abílio Clemente Filho, Virgílio Gomes e Aluísio Palhano foram discutidos em audiência do dia 25 de fevereiro

Sob a presidência do deputado Adriano Diogo (PT), a Comissão da Verdade Rubens Paiva ouviu o depoimento do deputado Antonio Mentor (PT), que conviveu com Abílio Clemente Filho, desaparecido durante a ditadura militar, e cuja história de vida foi discutida na manhã de 25/2, em audiência pública.

Na época estudante de Ciências Sociais na unidade de Rio Claro da Unesp e participante do Movimento Estudantil, Clemente ainda é considerado desaparecido. O último fato conhecido de sua história é um passeio à praia José Menino, em Santos, que realizou em 1971.

Desaparecido

O processo da localização de Abílio foi desencadeado por sua irmã Maria Helena, que até a atualidade está em busca de notícias de seu irmão. A moça procurou Amelinha Teles, integrante do Movimento da Comissão Familiar de Mortos e Desaparecidos e que também participa da Comissão da Verdade, sobre eventuais registros sobre o destino do irmão. Amelinha lembrou que existe ainda a possibilidade de se resgatarem notícias do rapaz em arquivos encontrados na cidade de Santos, a serem analisados em breve.

Segundo Mentor, que conviveu com Abílio Clemente Filho entre 1968 e 1970, o desaparecido tinha ainda um irmão, que foi preso pela Polícia do Exército no largo do Paissandu, tendo sido, mais tarde, localizado no Dops. Ainda de acordo com o parlamentar, além de participar do movimento estudantil, Clemente era um estudante bastante ativo, constantemente elaborando propostas e projetos acadêmicos.

Para Adriano Diogo, mesmo que já estejamos na terceira geração após a repressão militar, ainda não se sabe de tudo o que aconteceu naquele período. A comissão recorre a depoimento daqueles que viveram na época na tentativa de reconstruir os fatos. “Se esse assunto morrer ou se não se falar mais dele, vai acontecer como as guerras do Paraguai, do Contestado ou Canudos: até hoje nada foi revelado sobre esses acontecimentos”, observou o deputado.

Virgílio Gomes

A tarde desta segunda-feira 25/2 foi reservada pela Comissão estadual da Verdade para a elucidação de aspectos do desaparecimento de Virgílio Gomes da Silva, militante da Aliança Libertadora Nacional (ALN). Segundo dados apresentados durante a comissão, Virgílio é natural de Santa Cruz, no Rio Grande do Norte. Viajou para São Paulo e começou a trabalhar como operário petroquímico na empresa Nitroquímica. Militou pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB) e posteriormente ingressou no movimento sindical. Entre os anos de 1967 e 1968 viajou para Cuba, a fim de receber treinamento de guerrilha. No ano seguinte, comandou a ação que resultou no sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick. Foi preso pela Operação Bandeirante (Oban) e está desaparecido desde setembro de 1969.

Sobre o desaparecimento de Virgílio Gomes se manifestaram Amelinha Teles, a esposa do desaparecido, Ilda Gomes, os filhos do desaparecido Isabel Gomes e Virgílio Gomes Filho, o jornalista Antonio Carlos Fon, o representante do Sindicato dos Químicos, Domingos Galante, e o representante do Ministério Público Federal (MPF), Sérgio Suiama, que ajudaram a elucidar o caso.

Muito emocionado, Virgílio Gomes Filho contou ter seis anos de idade quando seu pai foi dado como desaparecido e falou sobre as dificuldades enfrentadas quando ainda criança. Em depoimento, relatou que juntamente com seus três irmãos foram separados de sua mãe e mandados para o juizado de menores. “Fomos privados do convívio com nosso pai e nada vai trazê-lo de volta. Mas viemos aqui para exigir que o caso seja esclarecido e que sejam julgados os envolvidos”. Virgílio Filho afirmou, ainda, que a busca é pela memória do pai, e ressaltou a importância da Comissão da Verdade.

Ilda Gomes, viúva do desaparecido, contou emocionada os momentos que se seguiram a partir do desaparecimento de Virgílio. No final de 1969, Ilda e seus filhos foram levados até a Oban onde foram interrogados. Seus filhos foram, então, encaminhados ao juizado de menores, enquanto ela era levada para o Dops, onde permaneceu presa por nove meses. “Sofri com a morte do marido e depois com a separação dos meus filhos. Eu perguntava do Virgílio e me diziam que ele havia fugido, e que naquela altura deveria estar em Cuba.”

Em 1972, após recuperar seus filhos e passar necessidades financeiras, Ilda e seus filhos foram para Cuba reconstruir suas vidas. Ao voltarem para o Brasil, iniciaram os trabalhos de investigações para descobrir onde estão localizados os restos mortais de Virgílio. Com a ajuda do grupo Tortura Nunca Mais e do Sindicato dos Químicos, em 2009 começaram as buscas nas valas do cemitério de Vila Formosa, mas até hoje aguardam resultados de DNA para comparação e possível reconhecimento.

Pau de arara

O jornalista Carlos Fon elucidou em detalhes sua prisão realizada por agentes da repressão e afirmou ter dividido espaço de tortura com seu companheiro. “Eu estava sendo torturado, pendurado no pau de arara, e me tiraram para que pudessem torturar o Virgílio, eu fui para uma sala ao lado e ouvi os gritos dele, e em seguida a risada alta do torturador”. Carlos Fon foi preso horas antes de Virgílio no mesmo local, supostamente após serem deletados por algum membro infiltrado. Fon concluiu sua participação expondo: “Dizem que não se ouve os gritos dos companheiros enquanto é torturado, apenas os próprios gritos, mas nos intervalos das torturas, ouvi os outros gritando”.

Durante os discursos, Domingos Galante teceu elogios ao companheiro de sindicato, e enfatizou a importância de Virgílio na luta sindical, principalmente na zona leste de São Paulo. Amelinha Teles falou a respeito de seu contato com a mãe de Virgílio, figura importante na denúncia dos desaparecidos por meio do grupo de mães de desaparecidos. Amelinha solicitou que seja encaminhado à Comissão Nacional da Verdade o caso dos filhos de Virgílio e tantos outros casos de crianças que foram tiradas de suas famílias ou sofreram algum dano físico ou psicológico devido à prisão de seus pais.

Vala comum

O presidente da comissão, Adriano Diogo expôs que recentemente foi localizada no cemitério de Vila Formosa uma vala clandestina com grande quantidade de ossadas, mas afirmou que o local estava remexido, o que dificulta a identificação dos restos mortais. Prova disso foram mudanças geográficas e a edificação de uma laje de concreto construída sobre a vala, que amassou os corpos. Além disso, por terem sido sepultados diretamente na terra, a precisão nos resultados dos exames de DNA é quase impossível. Adriano afirmou, ainda, que enviará requerimento à Comissão Nacional da Verdade para que seja aberto um capítulo para estudar as valas do cemitério de Vila Formosa.

Aluísio Palhano Pedreira Ferreira

Ainda durante 11° Audiência Pública da Comissão Estadual da Verdade de São Paulo, o Procurador Regional do Ministério Público Federal, Sergio Suiama, realizou a leitura do documento de denúncia apresentado pelo Ministério Público Federal à Carlos Alberto Brilhante Ustra e Dirceu Gravina agentes repressivos durante a ditadura militar, em face do desaparecimento do militante Aluísio Palhano. Militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), Aloísio está desaparecido desde maio de 1971, quando foi preso por agentes do DOI-Codi de São Paulo.

Funcionário do Banco do Brasil, participou ativamente no Sindicato dos Bancários. Com o golpe, foi demitido e exilou-se no México e passou a editar o jornal Correio Brasiliense. Na década de 1970 volta ao Brasil e é preso a partir de delação feita pelo Cabo Anselmo. No documento do MPF consta o relato de três testemunhas (Altino Dantas Júnior, Lenira Machado e Inês Etienne Romeu) das torturas e da transferência de Aluísio de São Paulo para o Cenimar/RJ e de seu retorno para São Paulo. A denúncia do MPF foi realizada em abril de 2012, mas foi arquivada pela 10° Vara Criminal.

A partir da condenação do Brasil pela Corte Interamericana de Direitos Humanos, o MPF reabriu o caso e está apurando o envolvimento dos agentes da ditadura no sequestro, tortura e assassinato de Aluísio.

fonte: Agência Alesp

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