Comissão estadual da Verdade relembra Guerrilha do Araguaia

15/04/2013

Cidadania

Famílias de desaparecidos ainda aguardam informações oficiais

A Comissão da Verdade do Estado de São Paulo Rubens Paiva, presidida pelo deputado Adriano Diogo (PT), realizou nesta sexta-feira, 12/4, audiência pública para colher os testemunhos de familiares de guerrilheiros desaparecidos no Araguaia, nascidos em São Paulo ou que tiveram sua atuação política principalmente no Estado.

A audiência, marcada por relatos emocionados, teve início com a apresentação do currículo dos nove desaparecidos e a apresentação de um vídeo sobre a atuação da Corte Interamericana de Direitos Humanos no caso. A corte condenou o Brasil, em 24/11/2010, pelo desaparecimento de 70 militantes e camponeses da Guerrilha do Araguaia.

Ao abrir o encontro, Adriano Diogo frisou que esse é um capítulo não escrito na história brasileira e que a comissão tem como missão preservar esta memória e auxiliar no esclarecimento das ações que levaram ao desaparecimento dos envolvidos e no reconhecimento da responsabilidade do Estado brasileiro.

A guerrilha

Os militantes do PCdoB se instalaram no sudoeste do Pará, na região do rio Araguaia, em 1966, com o objetivo de organizar um levante popular que envolvesse os moradores da região contra o regime militar, que se instalou no país com o Golpe de 1964.

O governo militar realizou ações na região a partir de 1972. A guerrilha foi oficialmente derrotada em julho de 1978, mas as principais ações militares ocorreram em 1972, 1973 e 1974 e resultaram no desaparecimento ou morte da maioria dos guerrilheiros, sem que houvesse por parte dos militares o reconhecimento da forma como ocorreram as mortes dos militantes, nem a entrega dos corpos às famílias.

Os nomes

Antonio Guilherme Ribeiro Ribas, desaparecido entre 26 e 29 de novembro de 1973, segundo relato de Ângelo Arroyo, guerrilheiro que escapou do cerco, foi morto pelos militares em um dos acampamentos usados pelos militantes. Seu irmão, Dalmo Ribas, fez um relato da luta da família por informações e pelo reconhecimento da morte de Antonio pelos militares.

O filho de Gilberto Olímpio Maria, Igor Grabois Olímpio, fez um desabafo sobre as dificuldades impostas na busca da verdade sobre o desaparecimento de seu pai em 25 de dezembro de 1973. Relatórios dos militares corroboram que Gilberto foi morto em dezembro e enterrado na própria região do Araguaia. A confirmação de sua morte foi possível através da publicação pelo jornal O Estado de S. Paulo, em 10 de outubro de 1982, de foto do guerrilheiro morto.

Miguel Pereira dos Santos, conhecido como Cazuza, desapareceu em 20 de setembro de 1972. Segundo relato de Angelo Arroyo, ele foi morto por militares. Sua ossada foi encontrada no cemitério de Perus.

A família de Cilon da Cunha Brum não conseguiu até hoje indícios consistentes da forma como foi morto e a localização de seu corpo. No relatório da Marinha consta apenas que ele foi preso em dezembro de 1973 na base militar de Xambioá. A estimativa é que tenha sido morto em 27 de fevereiro de 1974.

Laura Petit da Silva perdeu três irmãos na guerrilha do Araguaia, primeiro sua irmã Maria Lúcia, posteriormente seus dois irmãos Jaime Petit da Silva e Lúcio Petit da Silva.

Dada como desaparecida por quase duas décadas, os restos mortais de Maria Lúcia foram localizados em 1991 no cemitério de Xambioá, no Estado de Tocantins, envoltos num tecido de paraquedas, e identificados por exame de DNA em 1996.

Nesse cemitério foram enterrados os corpos da primeira campanha do Exército contra a guerrilha, em 1972. Jaime desapareceu entre os dias 28 e 29 de novembro de 1973. Segundo relatos de moradores, ele teria sido morto em uma emboscada.

Sua cabeça, teria sido levada para uma base militar e o resto de seu corpo enterrado na mata. Lúcio teria sido preso na casa de Manoel das Duas, morador local, e sido executado pelos militares em 21 de abril de 1974.

O operário Manoel José Nurchis, segundo apurado pelos familiares, foi morto em confronto com o Exército em 30 de setembro de 1972.

A filha de Orlando Momente, Rosana Momente, contou que seu pai foi para a clandestinidade quando ela tinha um ano de idade, mas que eles mantiveram encontros regulares até os cinco anos de Rosana, depois não teve mais nenhuma notícia. Soube da morte do pai ao ler em um livro uma lista de pessoas desaparecidas onde constava o nome de Orlando. Segundo relato de uma moradora da região do Araguaia, Orlando foi morto pelos militares e seu corpo parcialmente enterrado em um sítio.

Segundo notícias veiculadas pela imprensa, Pedro Alexandrino de Oliveira Filho foi morto em 4 de agosto de 1974 e enterrado em uma base militar. Como na maioria dos casos, não há registro da localização do corpo e nem da forma como se deu a morte.

Umas das lutas das famílias dos desaparecidos da Guerrilha do Araguaia é que sejam retificadas as certidões de óbito, que hoje não apontam precisão, nem a data e nem as causas das mortes.

fonte: Agência Alesp

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.