CPI do Trote recebe reportagens de TV como documento para embasar seu relatório

03/03/2015

Universidades

Rede de silêncio se forma, e agredidos podem tornar-se agressores, diz jornalista

Um universo de muito medo. Foi assim que o jornalista Victor Sá, produtor da série de reportagens Trotes ” Lições de estupidez, exibida pela TV Bandeirantes, definiu a experiência de trote violento a que são submetidos calouros de universidades paulistas.

“O que mais me chamou a atenção nessa série é a rede silenciosa que se forma. Muitas denúncias são feita em off, às vezes porque os calouros terão que conviver depois com seus agressores, às vezes porque eles absorvem esses fatos e darão o trote no ano seguinte”, avaliou Sá.

O jornalista foi ouvido nesta terça-feira (3/3) pela PI instaurada para investigar as denúncias de violações aos direitos humanos nas universidades, presidida pelo deputado Adriano Diogo (PT).

Victor Sá observou que há universidades coniventes, que até cedem espaço para trotes que degeneram em violência. E, para ele, quanto mais tradicional e de difícil ingresso for a faculdade, mais violento e prolongado ” às vezes por anos ” tende a ser o trote.

“Avalio que o trote se insere num processo de formação de quadros de classe média alta, branca, heterossexual. É uma manifestação que lida com preconceitos levados à enésima potência, de uma forma exacerbada”, ele concluiu.

A série de reportagens foi recebida pela CPI como parte de uma documentação que denuncia agressões, violências sexuais, perseguição, humilhação e desrespeito aos direitos humanos como prática disseminada nos trotes. Muitos estudantes não conseguem superar esses traumas e acabam desistindo da faculdade para a qual se prepararam durante tanto tempo.

“Essa série e um documento-chave para o relatório da CPI”, afirmou o deputado Adriano Diogo. “É também uma enorme contribuição ao reconhecimento do jornalismo investigativo”, disse.

Acolhimento de denúncias

A importância da CPI também foi destacada, por sua vez, pelo jornalista Gilberto Smaniotto, que foi ao ar com as reportagens da série sobre o trote. “A CPI abriu uma grande porta. As pessoas se tornaram mais confiantes e passaram a denunciar mais”, ele afirmou. A luta contra o trote violento deve fortalecer os calouros, “para que eles vivam dentro da universidade uma vida de aprendizado”, completou Smaniotto.

O deputado Marco Aurélio (PT) observou que, por trás do trote, existe “uma escola de formação de opressores, a perenização de uma hierarquia discriminatória, com a complacência da instituição”. Sarah Munhoz (PCdoB), também presente à reunião, propôs a criminalização do trote.

fonte: Agência Alesp

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