Denúncias sobre tráfico é forma de cobrar solução do governo do Estado

25/08/2008 17:16:00

Combate à criminalidade

 

A população do Estado de São Paulo está fazendo sua parte ao denunciar o tráfico de drogas, conforme comprovam os números do Disque Denúncia. Se compararmos os números entre janeiro e julho de 2007 com o do mesmo período de 2008, houve um crescimento de 21,4%.

As denúncias é uma forma da população cobrar uma política de segurança pública do governo dos tucanos no Estado de São Paulo e que coloque em prática ações para por fim à criminalidade.

A linha de atuação para combater o crime precisa ser diversa, ao contrário do que acontece com as ações propostas pelo governo no Estado há anos. O presidente da comissão de segurança do Instituto Brasileiro de Informações Sobre o Crime (Ibccrim) afirma que “é preciso pensar na prevenção geral, que não se exaure na oferta de tratamento ao dependente, nem no aumento da repressão policial. A forma do tráfico mostra que nós estamos carentes de políticas públicas integradas, que precisam contemplar o emprego, a cultura e o lazer”.

Leia abaixo matéria do jornal O Estado de São Paulo – 25/8/2008 – reportagem Fernanda Aranda e Marici Capitelli

Denúncias de tráfico sobem 21,4%

Crescimento é o maior registrado nos últimos cinco anos; de janeiro a julho, foram 26.694 ligações para o 181

O primeiro semestre deste ano teve um aumento recorde de denúncias sobre tráfico de drogas em São Paulo. Entre janeiro e julho, o Disque Denúncia (181) foi acionado 26.694 vezes com informações sobre o comércio de cocaína, maconha, crack e ecstasy. O número é 21,4% superior ao registrado no mesmo período de 2007, quando foram 21.988 casos. O crescimento foi o maior registrado nos últimos cinco anos. Desde 2003, a evolução de um ano para outro nunca havia ultrapassado a casa dos 17%.

O mapeamento do Instituto São Paulo Contra a Violência, administrador do 181, revela que o “epicentro” das denúncias está em três cidades. A divisão por municípios, feita a pedido da reportagem, indica que 36% dos telefonemas anônimos partiram da capital paulista. Em segundo lugar vem Sorocaba, no interior, com 4% dos casos, seguida por Guarulhos, na Grande São Paulo, com 3%.

A concentração de 43% das notificações em três regiões do Estado expressa que o tráfico obedece às leis de mercado, avalia o coordenador de Projetos do instituto, Paullo Santos. “O traficante não doa, ele vende droga. Por isso, ficará concentrado onde o poder de consumo é maior”, afirma. O sociólogo Marcelo Batista Neri, do Núcleo de Estudos da Violência da USP, concorda que a radiografia do Disque Denúncia pode mensurar onde o tráfico tem atuação.

Já o diretor administrativo do Departamento Estadual de Investigações sobre Narcóticos (Denarc), delegado Luiz Carlos Magno, afirma que a denúncia tem a ver com a relação da população com o comércio de drogas. “Infelizmente, o tráfico é estabelecido de forma sistêmica em todo Estado. Avalio que a concentração de denúncias nessas cidades é reflexo da conscientização dos moradores”, diz o Magno.

CRIME ORGANIZADO

Um outro argumento para o fôlego do tráfico nas denúncias é a migração do Primeiro Comando da Capital (PCC) para esse crime. “De quatro anos para cá, a facção deixa de trabalhar com o roubo de carga, por causa da informatização das empresas, e entra com tudo no tráfico de drogas”, afirma Marisa Ferffeman, psicóloga e estudiosa do crime organizado. “O PCC sabe onde estão todas as bocas e tem o controle de tudo isso. De algo dividido, como era antes com os microtraficantes, passa a ser centralizado”, completa ela, ao citar que uma das ferramentas da facção é conquistar o jovem que se sente excluído da sociedade.

O combate a um crime tão complexo faz Renato De Vitto, presidente da comissão de segurança do Instituto Brasileiro de Informações Sobre o Crime (Ibccrim), afirmar que a linha de atuação precisa ser diversa. “É preciso pensar na prevenção geral, que não se exaure na oferta de tratamento ao dependente, nem no aumento da repressão policial”, afirma. “A força do tráfico mostra que estamos carentes de políticas públicas integradas, que precisam contemplar o emprego, a cultura e o lazer.”

Os números de boletins de ocorrência sobre apreensões de entorpecentes e de traficantes também estão em alta. Entre janeiro e junho, foram 21.034 boletins registrados em delegacias em São Paulo, frente a 15.399 nos mesmo intervalo de 2003 – um acréscimo de 38,3%. “A denúncia caminha ao lado da ação policial. É uma das armas mais preciosas da investigação”, afirma o delegado Magno,do Denarc.

ESTRATÉGIAS

O Disque Denúncia é a estratégia de segurança adotada por Sorocaba que, apesar de concentrar 1,4% da população paulista (cerca de 580 mil moradores), é uma das líderes de denúncias. Durante o ano, são feitas campanhas sobre a importância de denunciar, informa o secretário de Governo do município, Maurício Biazotto Corte. “É fundamental que a população veja respostas para que a denúncia não caia em descrédito”, afirma.

Já em Guarulhos, terceiro em denúncias, as crianças entre 9 e 11 anos da rede municipal de ensino fazem um curso de nove semanas sobre a ação dos traficantes.

Os pais também participam. “Percebemos que os pais querem falar com os filhos sobre drogas, mas não têm conhecimento”, explica Tomaz Roberto Oscar, coordenador do projeto. Desde 2003, já freqüentaram o curso 3 mil crianças. A meta é chegar a 7 mil.

”O trabalho no tráfico tem regras bem estabelecidas”

Entrevista – Marisa Fefferman, psicóloga; estudiosa do crime organizado diz que os jovens, ao entrar para o crime, se sentem inseridos num grupo

Estudiosa do crime organizado, Marisa Fefferman vive mergulhada no mundo daqueles que, para ela, a sociedade elegeu como bode expiatório: os adolescentes criminosos. Ela é autora do livro Vidas Arrasadas, que retrata os garotos como trabalhadores do tráfico. Agora, a doutora em Psicologia e professora da rede pública busca entender o funcionamento do tribunal do Primeiro Comando da Capital (PCC). A seguir, ela fala sobre as regras do trabalho no crime e no mercado das drogas.

Por que a senhora acredita que os jovens são trabalhadores do tráfico?

Na periferia, ao contrário do que se pensa, os jovens não entram no mundo do crime. Eu digo é que eles entram no mundo do trabalho, porque no tráfico há regras. O tráfico não é o caos em que todo mundo faz o que quer, muito pelo contrário. A indústria das drogas é uma das mais rentáveis. As leis são como as de qualquer outro tipo de comércio. Os meninos não podem ratear (roubar) a boca do mesmo modo que um trabalhador não pode roubar a empresa para a qual trabalha. As regras são bem estabelecidas. Isso porque o objetivo é claro: garantir que o mercado seja perpetuado.

Isso faz com que os jovens se sintam inseridos em um grupo, o que não acontece na sociedade, onde ele é invisível. São questões que acho importante para fazer a ligação com o PCC (Primeiro Comando da Capital) e os debates.

O que são os debates?

O debate é uma forma de o PCC se organizar para decidir sobre as regras do jogo. Nós temos o Tribunal de Justiça. Eles têm o debate. As regras do mundo do crime são claras. Se alguém fez alguma coisa que não podia, se cometeu alguma infração, ele vai para o debate. Lá, você dá o seu ponto de vista, as testemunhas falam e ocorre o veredito, que pode ser uma segunda chance. Essa segunda chance é uma forma perversa e autoritária, mas também paternalista.

Em avaliações preliminares da sua pesquisa, a senhora diz que uma das conseqüências dessa organização do PCC é a redução do número de homicídios. Que fique claro que não estou fazendo nenhum tipo de apologia ao PCC. Mas as regras estabelecidas pela facção não permitem que qualquer um mate a seu bel prazer. As entrevistas que tenho feito apontam que ninguém pode matar sem falar com o disciplina, que são pessoas que se tornam referências na região. A comunidade chega até a exagerar e diz que ninguém mais está morrendo. Os dados do Proaim (Programa de Aprimoramento de Informações sobre Mortalidade, da Prefeitura), no entanto, mostram a redução das mortes.

Mas, ao dizer isso, a senhora não corre o risco de dar a entender que o PCC ficou “bonzinho”?

Corremos o risco de dizer que estamos perdendo para eles. O PCC está poupando vidas para “regrar” a sociedade. E isso é muito duro.

 

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