Depoimentos relatam os crimes cometidos pela ditadura

11/04/2013

Comissão da Verdade

Nesta sexta-feira (12/4), a Comissão Estadual da Verdade, presidida pelo deputado Adriano Diogo, irá coletar testemunhos do caso de guerrilheiros desaparecidos no Araguaia
nascidos em São Paulo ou que tiveram sua atuação política principalmente neste Estado.

Os casos tratados serão de Antonio Guilherme Ribeiro Ribas, Gilberto Olímpio Maria, Miguel Pereira dos Santos,Manoel José Nurchis, Orlando Momente, Jaime Petit da Silva e Lúcio Petit da Silva, Cilon da Cunha Brum e Pedro Alexandrino de Oliveira Filho.

Testemunhas:
Igor Grabois – filho de Gilberto Olímpio Maria
Maristela Nurchis – irmã do Manoel José
Crimeia Schmidt – ex-guerrilheira do Araguaia
Dalmo Ribas – irmão do Antônio Guilherme Ribeiro Ribas
Liniane Brum – sobrinha de Cilon da Cunha Brum
João Carlos Schmidt – filho de André Grabois, desaparecido do Araguaia
Laura Petit – irmã de jaime e Lúcio Petit
Rosana Momente – filha de Orlando Momente
Misael Pereira – irmão de Miguel Pereira dos Santos (a confirmar)

A audiência será realizada a partir das 10h30, no Auditório Teotônio Vilela da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.

Depoimentos sobre Aurora Furtado e Issami Okano

Aurora foi torturada até a morte e Okano permanece desaparecido desde 1974

Na 30ª audiência pública da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo Rubens Paiva, presidida pelo deputado Adriano Diogo, foram abordados os casos de Aurora Maria Nascimento Furtado, a Lola, morta em 10 de novembro de 1972, e de Issami Nakamura Okano, desaparecido em 14 de maio de 1974.

Lola nasceu em 1946, em São Paulo, e atuava na Ação Libertadora Nacional (ALN). Estudante de psicologia na Universidade de São Paulo, militou no movimento estudantil nos anos 1967 e 1968. Integrou o PCB, pertenceu à DISP e, após o AI-5, passou a atuar politicamente na clandestinidade.

Foi presa após uma batida policial da qual tentou fugir mas, após rápido tiroteio, levou um tiro na perna. Foi violentamente torturada com diversos métodos, entre eles a “coroa de cristo”, um torniquete de aço que é gradativamente apertado, esmagando aos poucos o crânio da vítima. Em 10 de novembro morreu em consequência das torturas e seu corpo crivado de balas foi jogado na rua.

Uma versão oficial de sua morte quer fazer acreditar que Lola foi morta em tiroteio por ter sido confundida, após interpelação de um policial, com traficante de drogas. Contudo, fotos encontradas nos arquivos do ICE/RJ, mostram profundas marcas de tortura no corpo de Lola, inclusive o afundamento do crânio.

O cineasta Renato Tapajós, cunhado de Lola na época de sua morte, contou que Lola era uma moça inteligente e alegre, que namorava José Arantes, importante liderança estudantil. Tapajós afirmou que ele e sua esposa, irmã de Lola, recomendaram veementemente que ela se exilasse, uma vez que avaliavam que a luta armada havia sido derrotada pela repressão. “Mas a essa altura, Lola havia estabelecido um compromisso moral com os companheiros que haviam sido presos, torturados, mortos”, contou.

Tapajós falou também sobre a prisão de Lola, afirmando que não houve engano no episódio, como as versões oficiais tentam fazer crer. Ocorreu, de fato, uma batida policial que impedia os carros de passarem. O guarda, ao abordar Lola exigindo que ela e o companheiro saíssem do carro (carregado de armas) para revistá-los, atirou nele na tentativa de fuga a pé. Lola foi atingida na perna, presa e levada para a tortura até a morte, por agentes da repressão e não do crime comum, como insinua a versão oficial. O cineasta acrescentou que havia nas sessões de tortura membros do Serviço Secreto da Aeronáutica, conhecidos por sua extrema violência.

Vocação para a poesia

Issami Nakamura Okano nasceu em 1945, em Cravinhos (SP), e também atuava na ALN. Estudava química na USP e foi no movimento estudantil que começou sua atividade política. Preso em 1969 e condenado a dois anos de reclusão, cumpriu pena no Presídio Tiradentes e foi libertado em outubro de 1972.

A segunda e última prisão de Issami foi decorrente do trabalho de infiltração do médico Henrique Ferreira de Carvalho, o Jota. No dia 14 de maio de 1974, Issami foi preso por agentes do DOI-CODI/SP em sua casa, no bairro de Pinheiros, e está desaparecido até hoje. No dia 7 de fevereiro de 1975, o então ministro da Justiça, Armando Falcão, informou à imprensa que Issami havia sido preso e estava foragido. Na época, o advogado Idibal Piveta, que falou na Comissão da Verdade, contestou essa versão, já que Issami havia cumprido pena e voltado a trabalhar, o que não justificava seu sequestro.

De acordo com Idibal, Issami foi levado à casa de Petrópolis onde foi submetido a intensas torturas. “Issami possuía uma firmeza de ideias contagiantes”, contou o advogado, lembrando que ambos trabalhavam com teatro e que Issami possuía vocação para a poesia. “Toda sua produção foi levada pelos carrascos do DOI-CODI”, afirmou.

História da repressão ao movimento sindical durante ditadura deve ser resgatada

Comissão da Verdade ouve líderes operários sobre o período

A Comissão Estadual da Verdade Rubens Paiva ouviu, em 5 de abril , o testemunho de diversos líderes operários sobre a repressão ao movimento sindical durante a ditadura. A advogada Rosa Cardoso, da Comissão Nacional da Verdade, informou que será estabelecido um grupo de trabalho para analisar os casos de repressão aos trabalhadores.

Segundo Rosa, os operários “foram a categoria mais perseguida após a ditadura”, pois além da repressão política, foram extremamente prejudicados pelas listas negras das empresas, tiveram cassados seus meios de obter subsistência, por terem sido impedidos de trabalhar.

Na mesa coordenada por Sebastião Neto, do Projeto Memória da Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo (OSM-SP), diversos líderes sindicais alternaram-se nos depoimentos. Todos foram unânimes em apontar a necessidade de resgatar a repressão ao movimento sindical. “Temos de escrever nosso nome na história por nós mesmos, chega de histórias escritas pelos filhos da burguesia. Temos de desmascarar de uma vez por todas a ditadura civil e militar, pois os empresários estão ainda hoje se escondendo”, afirmou Chico Bezerra, do Centro de Memória Sindical do ABC.

O papel da Igreja Católica e de membros do clero, como dom Paulo Evaristo Arns, foi lembrado por militantes como Amaro, que atuou na Juventude Operária Católica (JOC), e que defendeu a divulgação da história do movimento sindical para a juventude atual. Foi também lembrada a repressão a religiosos e a pessoas ligadas às igrejas por apoiarem a luta dos trabalhadores.

Isabel Peres, da Ação Católica Operária (ACO), defendeu a punição dos torturadores e de seus mandantes, e a divulgação da lista negra que as empresas faziam, que prejudicou milhares de trabalhadores. Pediu também um “olhar especial para as mulheres presas e torturadas”.

“O golpe de 64 veio para implantar o projeto econômico do capitalismo internacional, e foi capitaneado pelos Estados Unidos. E uma das primeiras medidas dos militares foi cassar as diretorias dos sindicatos e lá instalar interventores, que traíram a classe operária”, disse Waldemar Rossi, da Pastoral Operária. A ditadura preferia a cooptação das lideranças, e, quando ela não era possível, partia para a repressão.

Empresas colaboravam com repressão

Os sindicalistas falaram da colaboração de empresas com a repressão. Uma das citadas foi a Aliperti, que, além de ser extremamente poluidora, tinha sua segurança interna feita por um delegado de polícia, que circulava em carro oficial para intimidar os trabalhadores. Também foram apontadas, entre outras, Cimento Perus, Volkswagen e Mercedes Benz.

“Não se fala em punir as empresas que permitiram a entrada de policiais para prender operários”, lamentou Maria de Lourdes Nanci, da Associação dos Metalúrgicos Anistiados do ABC (AMA-ABC). Raphael Martinelli, do Fórum de Ex-Presos Políticos, e Waldemar Rossi, da OSM-SP, também comentaram a perseguição contínua a lideranças sindicais.

A greve de 1968 ocorrida em Osasco, que se iniciou e foi violentamente reprimida na metalúrgica Cobrasma, foi lembrada por Octaviano dos Santos, o Tigrão, da União dos Aposentados e Pensionistas de Osasco, que comandou movimento solidário na empresa Brown Boveri.

José Ibrahin, da União Geral dos Trabalhadores (UGT), disse que 30% das vítimas da ditadura eram operários, e isso deve ser resgatado e reconhecido, pois o povo brasileiro ainda sofre com os resquícios da ditadura. Ele lembrou sua atuação como líder sindical em Osasco e sua participação na greve de 1968.

Anízio Batista de Oliveira, deputado estadual pelo PT na Legislatura 1983/1987, que foi trabalhador rural e operário, prestou testemunho de repressão a trabalhadores rurais e grevistas em indústrias como a GM em São José dos Campos.

Ivan Seixas, colaborador da Comissão Estadual da Verdade, lembrou que nesta fase dos trabalhos estão sendo feitos a coleta de depoimentos de testemunhas e vítimas. O próximo passo, no segundo semestre de 2013, será a oitiva dos torturadores e seus mandantes. Isso se dará em colaboração com a Comissão Nacional, que tem poder de convocação.

Perseguição a sindicatos durante a ditadura é tema de debate

Memória sobre as violações de direitos tem que ser preservada

Seminário promovido pela Comissão Estadual da Verdade reuniu em 4 de abril, representantes de entidades sindicais para debaterem sobre a perseguição e resistência pelas quais passaram os sindicatos durante a ditadura militar (1964/1985).

O deputado Adriano Diogo, presidente da comissão, fez a abertura da reunião, frisando o título do seminário: “Trabalhadores que resistiram a ditadura: Qual o futuro dessa memória?”. Um dos coordenadores do evento, Sebastião Neto, disse que esse era o fórum adequado para que os sindicalistas também apresentassem reivindicações e sugestões de pauta para serem apresentadas, no próximo dia 15/4, no escritório da Presidência da República em São Paulo.

Neto informou que a Comissão Nacional da Verdade também vai apurar violações de direitos contra o movimento sindical durante o período ditatorial.

Reuniões clandestinas

José Ibrahin, representante da UGT, relatou sua participação na direção de um movimento grevista ocorrido em 1968, que foi fortemente reprimido pelo governo. “Foi o primeiro sindicato que sofreu intervenção”.

Ibrahin relatou ainda que os trabalhadores lutavam “contra a repressão do governo, o arrocho salarial, pela existência de um sindicato com o mínimo de liberdade e pelo direito de greve”. Ele disse que as reuniões eram feitas na clandestinidade, normalmente em igrejas. “Tínhamos consciência do perigo que corríamos, mas também sabíamos da necessidade de lutar”, declarou.

Atendendo pedido de Adriano Diogo, ele relatou parte de sua perseguição política. Preso em fevereiro de 1969, foi liberado um ano depois, na troca com o embaixador americano Charles Elbrick (sequestrado por grupo de resistência à ditadura). Após a liberação, Ibrahin ficou exilado no México, Cuba, Chile e no continente europeu.

Outro participante do seminário, Augusto Portugal, da Associação dos Metalúrgicos Anistiados do ABC, disse que essas comissões devem lutar pela “verdade, justiça e reparação”. Ele relatou experiência tida entre 1977 e 1978 quando em plena “efervescência política”, participou de uma greve na fábrica da Scania. Para ele, ela se notabilizou pelas características de organização.

Portugal pediu também a responsabilização de empresas que colaboraram com o regime de exceção. Ele disse que era comum empresas fornecerem informações pessoais de funcionários ao Departamento de Ordem Política e Social (Dops).

Empresas colaboraram com repressão

Luiz Carlos Prates, do CSP-Conlutas, confirmou que a empresa onde trabalhou também enviou documentos ao Dops. “Essas informações facilitaram perseguições, repressões, tortura e morte”, declarou Prates. Ele também protestou contra a Lei de Anistia, “ampla, geral e irrestrita”, editada em 1979. “O Brasil é o único país onde os que prenderam, torturaram e mataram continuam soltos”, asseverou.

Representante da CUT, Ruth Coelho entende que “até hoje os operários não têm a liberdade de organização dentro das empresas como tinham antes do golpe de 1964”. Ela alerta que se não trouxer esses fatos à luz, não se terá oportunidade de justiça e reparação. “E não se terá verdade se não se repassar a história das entidades sindicais”, finalizou Coelho.

A necessidade de unidade foi ressaltada por Stanislaw Szermeta, da Associação Nacional dos Anistiados Políticos: “Sem unidade no enfrentamento do inimigo, não se avança”. Ele alerta que há uma lacuna no movimento sindical, pois o questionamento da anistia não entrou na pauta das entidades sindicais.

O seminário faz parte da Semana Nacional de Memória e Direitos Humanos, e contou com a participação da Central Única dos Trabalhadores (CUT), CSP-Conlutas, Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Intersindical, Força Sindical, União Geral dos Trabalhadores (UGT), Associação dos Metalúrgicos do ABC, Fórum de ex-Presos e Perseguidos Políticos do Estado de São Paulo e Associação dos Anistiados Políticos, Aposentados, Pensionistas e Idosos.
Também esteve presente o ex-deputado Djalma Bom.

fonte: Agência Alesp

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