Depois de gastar R$ 118 milhões, Alckmin desiste do Complexo Cultural da Luz

17/03/2014

Tucanagem

Após R$ 53 milhões com arquitetos e consultores e R$ 65 milhões em desapropriações, o governo paulista decidiu paralisar o mais ambicioso projeto do Estado para a cultura: o Complexo Cultural Luz, que teria três teatros, duas escolas e ajudaria, em tese, a revitalizar a cracolândia.

O governador Geraldo Alckmin (PSDB) mandou paralisá-lo por considerá-lo caro demais (R$ 600 milhões) e porque “tem cara de coisa para rico”, como disse a dois interlocutores ouvidos pelo jornal Folha de S. Paulo.

O plano agora é reduzir o complexo –o original tinha 100 mil m², mas já havia sido encolhido para 70 mil m² (o que equivale a duas vezes e meia o prédio da Bienal).

Num ano eleitoral como 2014, Alckmin temia que a obra se tornasse alvo de protestos e sinônimo de desperdício, tal qual o rótulo colado por ativistas nos estádios da Copa.

O complexo consumiu dois anos e meio de projeto de um dos mais célebres escritórios de arquitetura do mundo, o suíço Herzog & de Meuron, autor do Estádio Nacional de Pequim, o “ninho de pássaro”, e da Tate Modern, de Londres.

Em 2009, quando o projeto foi lançado, o então governador, o também tucano José Serra, disse que a ambição era que ele tivesse um efeito restaurador na vizinhança, como ocorreu com a Tate Modern, velha usina que revitalizou a área ao sul de Londres ao ser convertida em museu.

Desde que Mário Covas assumiu o governo, em 1995, os tucanos tentam revitalizar a Luz com obras como a Sala São Paulo, sem sucesso.

Alckmin sempre teve reservas ao complexo. Dizia que era obra para “ricos” feita sem licitação, porque não houve concorrência para contratar os arquitetos. Há duas semanas, chegou a dizer a Serra que não seria feita. Sua equipe, porém, ponderou que a desistência teria repercussão péssima para a reeleição.

Sem o complexo, o governo jogaria no lixo R$ 53 milhões –R$ 45 milhões para os arquitetos e R$ 8 milhões para a Theatre Projects Consultants, consultoria inglesa especializada em teatros.
O projeto dos arquitetos suíços foi entregue em agosto de 2012. A desapropriação de 205 imóveis em três quadras só ampliou a degradação da cracolândia. Uma favela chegou a ser criada na área.

Com a demolição dos prédios, a região ganhou ares de cidade bombardeada, como Bagdá, ao lado da Sala São Paulo, o principal espaço de concertos na cidade.

Uma das críticas aos projetos culturais feitos nos últimos 15 anos na região é que eles só geram ocupação eventual; não há moradores dia e noite nas ruas. É o local perfeito para marginalizados como dependentes de crack.

Fonte: jornal Folha de S. Paulo

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