Emoção e pedido de desapropriação da área da Olga Benário

17/09/2009 18:20:00

Audiência Pública

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Os representantes dos governos estadual e municipal não aceitaram o convite da Comissão de Direitos Humanos para participar de uma audiência pública sobre a violenta reintegração de posse do terreno ocupado pela Viação Campo Limpo, no Capão Redondo. A audiência realizada na tarde desta quinta-feira (17/09) na Assembleia Legislativa contou com a presença de moradores despejados que, em relatos emocionados, contaram histórias que não apareceram nas páginas dos jornais e pediram o terreno onde moravam.

Irineu foi acordado às 6h00 da manhã pelos carros de polícia e helicópteros que começaram a sobrevoar a área da favela onde residia com sua família. A Olga Benário, no Capão Redondo, periferia da zona sul da capital. “Foi criminoso. Invadiram às 6h00 para nos despejar. Não deixaram nem a gente pegar as roupas. Os caminhões da Viação Campo Limpo levaram parte dos nossos pertences para um galpão sem cobertura, mas a maior parte das nossas poucas coisas está desaparecida. A Prefeitura mandou caminhões de lixo uma semana antes da desapropriação para limpar a área; então ficamos no meio da lama porque nem pedra na rua eles deixaram”, denunciou Irineu.

Bombas de gás contra crianças

Aos 43 anos, Eufrásia é avó de Michael, uma das dezenas de crianças que estavam na Favela Olga Benário no momento da desocupação. Ela viu o estado de saúde do neto, que sofria de rinite, piorar nas últimas semanas, devido à inalação de gás lacrimogêneo, utilizado pela Tropa de Choque durante o despejo.

Já Karina perdeu a única fonte de renda que ela e o marido tinham para sustentar 5 filhos: um velho Chevette utilizado para recolher e vender material reciclável no Capão Redondo. “Entre as 800 famílias despejadas da Favela Olga Benário, há centenas de pessoas sem documento, com dificuldade para obter benefícios, porque os barracos foram incendiados. As escolas e postos de saúde da região foram proibidos de receber os moradores da favela”, denunciou Felícia Mendes Dias, líder da Frente de Luta Por Moradia de São Paulo.

O deputado Enio Tatto, que esteve na Favela no dia da invasão policial citou a enganosa e irônica propaganda do Governo do Estado de São Paulo um dia após o trágico despejo no Capão Redondo. “Habitação popular no Estado de São Paulo é assim: a gente faz e faz bem feito, diz a propaganda de Serra. Na realidade, o que acontece é que há centenas de apartamentos populares vazios em Cotia, Ipiranga e Parque Bristol e milhares de famílias em cortiços, favelas e áreas de risco nas mesmas regiões. Além disso, o governo reduz cada vez mais o orçamento para moradia no Estado”, relatou Enio.

Moradia não é caso de polícia!

O deputado Vicente Cândido lembrou que o baixo investimento em moradia é alvo de denúncias da Bancada do PT há anos. Para Simão Pedro, além da redução de programas habitacionais, o Poder Público é criminoso quando o assunto é moradia. “O Estado agiu com crueldade e violência na Favela Olga Benário e a Prefeitura foi omissa”, denunciou Simão.

“O proprietário do terreno onde estas pessoas estavam tem uma dívida milionária de IPVA e INSS. O crime que foi cometido contra os moradores da favela não pode passar em branco. Vamos pedir a desapropriação do terreno”, propôs o deputado Adriano Diogo.

A política do PSDB para solucionar questões como desocupações e greves também foi alvo de críticas inflamadas do deputado Marcos Martins. “Temos uma denúncia de que houve uma reunião entre os representantes dos bancos e comandantes da PM de São Paulo no último dia 11 de setembro. A reunião não foi para inibir roubos e proteger os clientes, como era de se esperar, mas para reprimir os bancários, caso haja greve. Esta é a política do PSDB e seus aliados, ostensivamente contra os trabalhadores e a população mais carente”, lamentou o parlamentar.

Presidente da Comissão, o deputado José Cândido, prometeu urgência nos encaminhamentos. “Na condição de ex-morador de cortiço, sinto muita emoção, revolta e indignação com a violência praticada contra a população mais pobre”, disse o deputado no encerramento da audiência, cujo principal encaminhamento refere-se aos pedidos de reintegração de posse do terreno do Capão Redondo, que serão remetidos a todas as autoridades.

 

 

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