Família busca há 40 anos os restos mortais de Gildo Macedo Lacerda, vítima da ditadura

30/10/2013

Comissão da Verdade

Parentes e amigos foram ouvidos durante reunão em homenagem ao militante

A Comissão estadual da Verdade Rubens Paiva homenageou em 25/10, Gildo Macedo Lacerda, torturado e morto em outubro de 1973. Pertencente à Ação Popular Marxista-Leninista (APML), Gildo foi assassinado pela ditadura militar e, há 40 anos, sua família está em busca de seus restos mortais.

Em primeiro de novembro de 1973, órgãos de imprensa publicaram que Gildo, juntamente com outro militante de esquerda, se envolveu em um tiroteio no centro de Recife. No entanto, Gildo havia sido preso no dia 22 de outubro, juntamente com sua mulher Mariluce Moura, que estava grávida de Tessa Moura Lacerda. Tessa apenas foi registrada como filha de Gildo no início da década de 1990, mediante ação judicial.

Mauriluce é jornalista e autora do livro Revolta das Vísceras e idealizadora do documentário Por Quê?, que tenta responder algumas questões acerca do envolvimento de Gildo com o movimento de resistência à ditadura e os mistérios sobre sua morte. Segundo Mauriluce, são quatro perguntas a serem respondidas, pelo documentário. A primeira é por que mataram Gildo e por que o Estado montou uma farsa para justificar sua morte; a segunda é por que Gildo ingressou na luta contra a ditadura militar; a terceira é por que a Ação Popular, pós AI-5, manteve uma postura política ideológica em vez de proteger os membros militantes; e a quarta, por que não devolveram o corpo de Gildo nem entregaram seu atestado de óbito aos familiares.

O direito ao sepultamento e à verdade

Citando a tragédia grega Antígona, de Sófocles – em que a heroína que dá nome à peça luta pelo direito ao sepultamento de seu irão Polinices -, a socióloga Tessa Moura Lacerda proclamou que as leis de um governo tirano são injustas, por isso devem ser desobedecidas. E apelou à sociedade: “deixe-nos enterrar nossos mortos”.

Para a socióloga, “o que a ditadura fez foi uma monstruosidade, e um sepultamento digno é o mínimo que podemos fazer por quem morreu lutando pela democracia brasileira

Segundo reportagem publicada na época, Gildo teria traído seus companheiros e iniciado o tiroteio que resultou na morte de dois militantes, entre eles o próprio Gildo.

Segundo informações oficiosas, ele foi morto no dia 28 de outubro de 1973, sob a tortura dos órgãos da repressão. Seu corpo foi enterrado no Cemitério da Várzea, em Recife, depois foi transferido para a vala comum conhecida como Buraco do Inferno e, posteriormente, para vala comum no cemitério Parque das Flores. Os restos mortais nunca foram entregues a família, assim como o atestado de óbito, cuja expedição só foi possível devido à Lei 9.140/1995, mas em que não constam as reais causas da morte.

O ex-companheiro de militância e de cela de Gildo, Oldack Miranda, afirmou que fora preso em outubro de 1973 e levado ao Quartel do Barbalho, onde vira Gildo encapuzado, sendo empurrado com muita violência em direção ao pátio. Segundo Miranda, Gildo tinha uma ferida no pé que o fazia mancar, e eles o empurravam brutalmente para que sentisse dor. Posteriormente, Oldack foi levado pela FAB para o Doi-Codi Recife, onde sofreu torturas, como choques nos genitais e surra no pau-de-arara. Segundo Oldack, um dos torturadores sussurrou em seu ouvido: “Sabe o Zé Carlos e o Gildo? Já era”. Foi assim que ele soube da morte do seu companheiro de militância. Emocionado, Oldack encerrou sua fala citando o escritor francês Léon Bloy, “sofrer passa, mas ter sofrido não passa”.

Provas documentais

A coordenadora da Comissão Estadual da Verdade, Amélia Teles, afirmou constar da ata de uma reunião, em maio de 1973, entre o ministro do Exército, Ernesto Geisel, o chefe do Centro de Inteligência do Exército, Milton Tavares, o chefe das operações no Araguaia, Antonio Bandeira, e o presidente Emílio Garrastazu Médice as “novas diretrizes na guerra contra a “subversão””. Entre elas está a seguinte: “A qualquer custo eliminar sem deixar vestígios a militância rural e urbana”. A reunião formalizou também a criação de dois grupos que tinham o poder de assassinar e sumir com os corpos.

Diante disso, Amelinha afirmou que o Brasil foi condenado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos a devolver os corpos e apurar verdade dos fatos ocorridos; e lamentou que a impunidade do passado ainda gere consequências nos dias de hoje.

O jornalista e escritor Emiliano José afirmou que a ditadura deixou muitas marcas, tanto para quem a vivenciou, quanto para o resto da sociedade. “Quem a vivenciou teve de usar máscaras para suportar as marcas e as cicatrizes, consequências da mão da ditadura no corpo e na alma”, disse. Emiliano afirmou ainda que vivemos uma transição muito demorada e poucos daquela época sobreviveram, por isso da necessidade de continuar assiduamente os trabalhos da comissão para chegar à justiça. “Criminosos ainda estão vivos e devem ir para o banco dos réus. Isso não é vingança e sim uma questão de justiça”, concluiu.

O presidente da comissão, deputado Adriano Diogo (PT), expôs que a cada audiência os membros vão perdendo o medo de falar e, com isso, o trabalho da comissão se torna incessante. Para ele, há setores do país que não querem a verdade, por isso defendeu que a presidente da República, no papel de ex-presa política e testemunha da morte de diversos companheiros, deveria solicitar às Forças Armadas que abram seus documentos para que o trabalho da comissão passe de memória para verdade.

fonte: Agência Alesp

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *