Família Negri na mira do legislativo paulista

28/11/2006 18:40:00

Deputados estaduais integrantes da Comissão de Serviços e Obras da Assembléia, aprovaram em 28/11, o convite dos irmãos Barjas Negri e Arnaldo Negri, para esclarecerem os indícios de irregularidades durante as gestões na Secretaria Estadual de Habitação. Barjas foi assessor executivo de José Serra no Ministério da Saúde, assumiu a direção do Ministério com a saída do tucano, foi nomeado secretário de Habitação, função que acumulou com a presidência da CDHU no governo Alckmin de janeiro de 2003 a julho de 2004 quando foi eleito prefeito de Piracicaba.

Arnaldo Negri, funcionário da CDHU foi Superintendente de Gestão dos Programas de Autoconstrução e Núcleo Habitacional do CDHU, também terá que comparecer perante os deputados. Em 1999 Arnaldo foi apontado em auditoria do CDHU, como participante de uma quadrilha que recomercializava unidades habitacionais construídas pelo Estado e exonerado em 2001. Dois anos depois, quando seu irmão Barjas assumiu a direção do CDHU, ele voltou como gestor do Programa Habiteto. Na permanência dos irmãos Negri no CDHU o Tribunal de Contas do Estado de São Paulo julgou 137 obras irregulares.

Os deputados, querem ainda a presença de Abel Pereira na Comissão. O empresário fornecedor da prefeitura de Piracicaba está envolvido na Operação Sanguessuga na aquisição de ambulâncias. A CPI dos sanguessugas descobriram que Abel Pereira telefonou 19 vezes para a família Vedoin. Os Vedoin são comandantes da máfia dos sanguessugas e afirmaram durante depoimento, que Abel Pereira era o responsável pela liberação de recursos durante a gestão de Barjas Negri no Ministério da Saúde.

A iniciativa do convite é dos deputados Simão Pedro, Enio Tatto e Sebastião Arcanjo, foi aprovado ainda o convite de Goro Haram, ex-diretor Presidente do CDHU.

O deputado Simão Pedro, solicitou que a reunião ocorra na primeira quinzena de dezembro, para o deputado à mudança da Legislatura pode alterar o andamento das convocações.

Leia a matéria “Abel não se explica” – Revista Isto É, 1932

História mal contada: em depoimento
de duas horas, Abel não conseguiu
convencer a Polícia Federal

As declarações de Vedoim

Dossiê
Abel não se explica
Acusado de ligar os tucanos à máfia
dos sanguessugas, empresário cai
em contradição, não convence a PF
e terá que depor na CPI

Por Hugo Marques, de Cuiabá (MT),
e Alan Rodrigues
Entre os policiais federais que investigam o chamado caso do dossiê Vedoin há uma certeza: o empresário paulista Abel Pereira, apontado como o elo entre políticos do PSDB e a máfia dos sanguessugas, não consegue se explicar. Na segunda-feira 23, cercado por três advogados criminalistas, Abel permaneceu durante duas horas frente a frente com o delegado Diógenes Curado Filho na sede da Polícia Federal em Cuiabá (MT). Respondeu a diversas perguntas, foi confrontado com uma série de documentos bancários já em poder da Justiça e caiu em várias contradições. Transcrito, o depoimento de Abel ocupa quatro folhas com 147 linhas. Logo no início, ele é questionado sobre sua relação com o prefeito de Piracicaba (SP) e ex-ministro da Saúde, Barjas Negri. Responde de forma curta e grossa: “Nunca tive contato ou acesso ao Ministério da Saúde, seja diretamente com o Barjas ou com seus assessores.” No final do depoimento, quando colocado diante de uma fotografia publicada por ISTOÉ há três semanas, que mostra Abel ao lado de Barjas no principal gabinete do Ministério da Saúde, o empresário apresentou nova versão: “Em 2002 o então prefeito de Jaciara (MT), Valdizete Martins, me pediu que tentasse conseguir uma entrevista com o então ministro para conseguir recursos para a construção de um hospital na cidade. Mesmo não tendo amizade com o ministro mantive contatos e foi agendada uma entrevista. O ministro deu as orientações para Valdizete e depois conseguiu os recursos.”

Velhos amigos: Abel e Barjas no
gabinete do ministro em 2002. A
imagem desmente a versão
Ninguém acreditou. Na PF todos sabem a dificuldade de se obter uma conversa reservada com um ministro. Como é que Abel conseguiu intermediar um encontro do prefeito com Barjas se ele não possuía uma relação mais estreita com o ministro? Um outro detalhe que compromete a versão de Abel é o fato de a obra liberada ter sido feita pela construtora do próprio Abel. Na terça-feira 24, ISTOÉ entrevistou Valdizete Martins. O ex-prefeito também compromete a história contada por Abel à PF. “Ele (Abel) falou que ia me ajudar a conseguir a audiência. Disse que eram da mesma cidade e vizinhos”, contou. Segundo Valdizete, entre sua conversa com Abel e a audiência no Ministério passaram-se apenas oito dias. “Barjas disse que iria correr contra o tempo. Mas o dinheiro foi liberado”, lembra.
Outra contradição que, segundo os federais, reforça as suspeitas contra Abel diz respeito à família Vedoin, chefe dos sanguessugas. No final de setembro, em entrevista concedida a ISTOÉ, Luiz Antônio Vedoin afirmou que Abel era quem conseguia liberar junto ao ministro Barjas Negri as verbas para a compra de ambulâncias superfaturadas. Segundo Darci Vedoin, Abel ficava com 6,5% de todo
o dinheiro liberado pelo Ministério da Saúde. Em depoimento prestado à Justiça no dia 11, Luiz Antônio confirmou tudo o que dissera à revista, inclusive o valor das propinas pagas a Abel. No mesmo depoimento, Luiz Antônio disse que fora procurado por Abel dias antes de a PF apreender em São Paulo o R$ 1,7 milhão
que alguns petistas pagariam aos Vedoin em troca de um dossiê fajuto. A polícia suspeita que Abel estaria tentando comprar o silêncio dos Vedoin. Abel nega tudo. Disse que não procurou a família Vedoin, mas que teria sido procurado por eles, interessados em vender um dossiê contra o senador petista Aloizio Mercadante.
Mais uma vez, a versão de Abel não convenceu. Isso porque o rastreamento telefônico em poder da PF indica que Abel estava mesmo procurando falar com os Vedoin em Cuiabá desde meados de agosto. “Ele nos procurou, mas não o atendi”, disse Vedoin. A PF não se convenceu das histórias contadas por Abel e agora trabalha em rastreamentos bancários que poderão comprovar as propinas. Também a CPI dos sanguessugas investiga o caso. Depois das eleições, Barjas e José Serra, o antecessor e padrinho de Barjas no Ministério, serão chamados a depor. Os ex-ministros do atual governo Humberto Costa e Saraiva Felipe também serão convocados. Depois, será a vez de Abel.
Mas não é apenas a participação de Abel que coloca o ex-ministro Barjas Negri no alvo da polícia. Quando deixou o Ministério, Barjas assumiu a Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano de São Paulo (CDHU). Lá existem fortes indícios de irregularidades. Muitas cometidas com a participação de empresas ligadas a Abel. Em 1999, Arnaldo Negri, irmão de Barjas, foi apontado em auditoria da CDHU como participante de uma quadrilha que recomercializava unidades habitacionais construídas pelo Estado. Em 2001 Armando foi exonerado. Dois anos depois, quando Barjas assumiu a presidência da CDHU, Armando voltou como gestor do Programa Habiteto, que constrói casas populares. Até hoje permanece no cargo e seu papel é negociar diretamente com prefeitos a liberação de verbas. Esta semana, Barjas será convidado a depor na Assembléia Legislativa de São Paulo. Na ocasião, terá que dar explicações sobre 137 obras que o Tribunal de Contas do Estado julgou irregulares.

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