Grande SP teria 51% mais água se Alckmin tivesse agido antes

31/08/2015

Desgoverno tucano

A Grande SP poderia ter 51% a mais de água em seus reservatórios se o governo Geraldo Alckmin (PSDB) e a Sabesp, empresa paulista de saneamento, tivessem adotado desde o início da crise hídrica as medidas de controle de consumo hoje em vigor.

O cálculo foi feito pela Folha com base em dados da Sabesp que mostram a economia de água obtida com quatro medidas: bônus na conta para quem economiza; sobretaxa para quem aumenta o gasto; corte da venda de água para municípios onde a Sabesp não atua; e redução de pressão, que raciona o volume de água nas torneiras.

Se todas essas ações tivessem sido tomadas em janeiro de 2014, quando a crise já dava seus primeiros sinais, a região metropolitana teria poupado 238 bilhões de litros em seus reservatórios.

O volume equivale a uma vez e meia toda a água hoje no Cantareira, manancial em nível crítico desde o ano passado –na sexta-feira (28), estava em 12,2%, incluindo as duas cotas do volume morto. O governo diz que as ações tomadas tiveram resultados graduais e que o cálculo é “descabido”.

MEDIDAS

No início do ano eleitoral de 2014, o Cantareira, principal manancial da Grande SP, tinha 27% da capacidade –sem considerar o volume morto, que nunca havia sido usado–, e o clima estava atipicamente seco. As chuvas eram as piores em 84 anos.

A primeira medida anunciada pelo governo foi o bônus por economia de água, em fevereiro de 2014. A princípio restrita à área do Cantareira, foi estendida a clientes de outros mananciais em abril.

Naquele mês, o governo já tinha autorização da agência estadual de saneamento para aumentar em 5,4% a conta de água em São Paulo. Mas escolheu não fazê-lo.

Ao longo do ano, Alckmin foi questionado por adversários políticos que o acusavam de retardar medidas impopulares por causa da eleição –o que o tucano sempre negou. Ao mesmo tempo, especialistas cobraram medidas para punir o desperdício de água.

Entre os críticos, estava o hidrólogo Jerson Kelman –que, em 2015, assumiu o cargo de presidente da Sabesp, posto que ainda ocupa. Em entrevista ao jornal “Brasil Econômico” em novembro do ano passado, Kelman disse que quem aumentasse o consumo de água em São Paulo deveria pagar mais.

Afirmou que as eleições haviam diminuído a clareza das informações transmitidas à população. “Sob o ponto de vista do interesse público, a atuação não foi a melhor, desperdiçou-se água”, afirmou.

O reajuste na conta de água só seria implantado em dezembro. No mesmo mês, o governador solicitou a implantação da sobretaxa na conta.

PRESSÃO

Outras duas medidas foram adotadas gradualmente pelo governo do Estado. A principal é a redução de pressão da água. Usada desde 1997, passou a ser aplicada com mais intensidade em março de 2014 e ampliada mês a mês. Atualmente, é responsável por 54,4% do volume economizado. Ao mesmo tempo em que reduz vazamentos, causa falta de água à noite, principalmente em bairros altos.

Outra iniciativa foi a redução do envio de água a municípios em que a empresa não atua como concessionária, como Guarulhos e Santo André.

Para o hidrólogo e professor da Unicamp Antônio Carlos Zuffo, o governo do Estado demorou para tomar medidas mais rígidas. Ele sugere a adoção de um sistema de “gatilhos”: quando a situação atingir um nível de gravidade, ações de economia são automaticamente adotadas.

Já a urbanista Marussia Whately, da ONG Aliança pela Água, defende a elaboração de um plano de contingência para a crise. O Estado e a Sabesp negam a possibilidade de rodízio de água em 2015.

OUTRO LADO

A Folha questionou o Palácio dos Bandeirantes, a secretaria estadual dos Recursos Hídricos e a Sabesp sobre a economia que teria sido obtida caso as medidas para reduzir a produção de água tivessem sido implantadas desde o início do ano passado, quando a crise hídrica começava a mostrar sinais.

O Palácio e a secretaria estadual indicaram a Sabesp para responder ao questionamento. A estatal de saneamento, por sua vez, declarou que o cálculo feito pela reportagem é “descabido”.
“Não é razoável ser comentarista de videotape”, disse a companhia de saneamento.

A Sabesp diz que, em fevereiro de 2004, os níveis dos reservatórios da Grande São Paulo estavam mais baixos do que no mesmo mês de 2014 e que, mesmo sem a adoção de medidas como a sobretaxa na conta, “não houve problema algum”. Em fevereiro de 2004, o Cantareira chegou a um índice mínimo de 4,7% (sem contar com o volume morto).

Naquele ano, no entanto, a quantidade de água que entrava nas represas era maior, e as chuvas dos meses seguinte vieram acima da média, o que aumentou o nível dos reservatórios.

Outro argumento da Sabesp é o de que a redução da distribuição de água de 27% obtida desde o início da crise só foi possível devido a uma série de medidas adotadas desde de fevereiro de 2014.

“Os resultados das ações da companhia foram gradativos ao longo do ano e em sintonia com cenários de pluviometria de acordo com as estações climáticas. A aplicação do ônus só foi adotada como complemento no início de 2015 porque o período de chuvas (iniciado em outubro de 2014) se mostrou abaixo do esperado”, diz a nota da estatal.

De acordo com a empresa, a adesão de 83% da população ao programa de bônus, por exemplo, “foi aumentando na proporção da conscientização da população, atingindo em julho deste ano o índice recorde de 6,5 mil litros por segundo”.

A companhia refuta o argumento de especialistas –que chegou a ser adotado pelo presidente da Sabesp antes de atingir o posto– de que a economia de água seria maior se a sobretaxa tivesse sido implantada antes.
Ainda segundo a Sabesp, o aumento de redução de pressão, usada para combater o desperdício de água devido a vazamentos, dependeu de instalação de novos equipamentos na Grande SP.

A estatal, por outro lado, diminuiu seguidas vezes suas metas de renovação da tubulação da cidade, o que poderia minimizar a necessidade da redução de pressão. Além disso, a Sabesp já deveria ter prontas desde 2007 medidas que diminuíssem a dependência da Grande São Paulo ao sistema Cantareira.

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