Investigação sobre acidente no Metrô foi prejudicada pelo Consórcio

21/08/2008 15:41:00

Acidente no Metrô

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O Consórcio Via Amarela, contratado pelo governo do Estado para construir a Linha 4 do Metrô, dificultou as investigações do acidente ocorrido em janeiro de 2007, nas obras da Estação Pinheiros, que vitimou fatalmente sete pessoas.

Logo após o acidente, foram transferidos para outras localidades técnicos responsáveis pela obra, dificultando o IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas – nas apurações das causas do desabamento. A informação foi dada pelo engenheiro André Assis, integrante da comissão do instituto ao jornal O Estado de São Paulo. (leia abaixo a matéria completa).

Laudo do Instituto de Criminalística confirma erros na execução e fiscalização da obra

Segundo apurou o jornal O Estado de São Paulo, o laudo oficial do IC – Instituto de Criminalística de São Paulo – vai referendar as conclusões do relatório do IPT, que apontou erros na execução da obra e falhas no processo de fiscalização. O governo do Estado, que contratou o Consórcio Via Amarela, poderá ser responsabilizado pelo acidente. (leia abaixo matéria completa)

Jornal  O Estado de São Paulo – 21/8/2008

Consórcio transferiu técnicos da cratera

O principal desafio da comissão do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) durante a apuração das causas do acidente na Estação Pinheiros da Linha 4 – Amarela do Metrô foi conseguir ouvir os principais envolvidos na obra, pois o Consórcio Via Amarela transferiu algumas dessas pessoas para outros locais, logo após o desabamento. Outra dificuldade foi confirmar a veracidade de alguns depoimentos.

Em entrevista ao Estado e à revista eletrônica e-ABMS, da Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica (ABMS), o engenheiro André Assis, integrante da comissão, revelou bastidores da investigação do acidente que matou sete pessoas em janeiro de 2007, contou que o projeto original não foi seguido pelo construtor, Consórcio Via Amarela, que o plano de emergência para evacuação da obra não estava bem treinado e não foi executado à risca, que o Metrô não fiscalizou os trabalhos como deveria e que o contrato utilizado, turn-key, não é adequado para esse tipo de obra subterrânea de infra-estrutura por causa de riscos geológicos. Leia os principais trechos da entrevista:

CONSULTORES

“Houve reação negativa à presença de estrangeiros na Comissão. O Crea (Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia) chegou a exigir que eles tivessem diploma reconhecido e registrado no Brasil. Por causa dessas restrições, os consultores internacionais tiveram de trabalhar em seus países, com a documentação que a Comissão lhes enviava. ”

DIFICULDADES

“O Consórcio transferiu rapidamente, para outras obras, as pessoas que estavam, de algum modo, envolvidas com a Estação Pinheiros. Não acho que isso seja errado. A transferência de pessoal foi uma estratégia do consórcio para dificultar as investigações. Falar com as outras pessoas foi muito complicado. Ou elas não compareciam ou o conteúdo dos depoimentos era questionável. Pela lei, as pessoas podem omitir informações ou não falar a verdade para não gerar provas contra si.”

TRAÇADO DA LINHA 4

“Quem decide o local de um túnel urbano não é a geologia, é a demanda. A linha do metrô tem de passar onde há demanda por transporte público. Não adianta construir uma estação 500 metros antes ou 500 metros depois do local de concentração da demanda. Não temos que discutir se a linha está no melhor lugar ou não. Fica para a engenharia a responsabilidade de encontrar a solução técnica mais adequada.”

ERROS DO METRÔ

“O Metrô teve três falhas contratuais fortes. Uma delas foi essa, o atraso no pagamento de indenizações e na conseqüente liberação de terrenos que seriam utilizados como canteiros de obras. A outra foi alterar o contrato logo de início, com a inclusão de uma nova estação que não estava prevista no projeto licitado.”

FISCALIZAÇÃO FALHA

“O Metrô ficou sempre numa posição muito hesitante. Diante dessa nova modalidade contratual (turn-key), a companhia não sabia se de fato podia controlar a obra. Ou se, caso o fizesse, iria interferir na responsabilidade do empreendedor. Essa hesitação quanto ao papel que deveria exercer deixou a equipe do Metrô meio perdida. Conversando com as diversas pessoas da companhia envolvidas com a obra, não foi possível identificar muito bem o papel de cada uma dentro das responsabilidades contratuais.”

DESVIOS DE PROJETO

“Quando os técnicos detectaram rachaduras no túnel, era preciso interromper a obra. Os instrumentos mostraram que alguma coisa diferente estava acontecendo. O projeto não foi seguido à risca. Era preciso executar as escavações com certo cuidado, com certo distanciamento das paredes dos túneis. Isso não aconteceu.”

PLANO DE EMERGÊNCIA FALHO

“O que chamou muito a atenção nesse acidente, desde o início, foi que as vítimas foram, todas, transeuntes. Mesmo o operário que morreu estava dentro de uma área de onde seus companheiros já haviam sido evacuados. Os outros todos estavam passando numa rua depois que sinais de alerta já tinham sido dados. Mesmo assim, o tráfego da rua não foi fechado. Alguma coisa falhou na parte de gestão da obra no que se refere às ações de emergência.”

Perícia oficial reafirma 80% de conclusões do IPT

O Instituto de Criminalística (IC) de São Paulo concluiu ontem o laudo oficial sobre o acidente na futura Estação Pinheiros do Metrô. O Estado apurou que 80% do documento vai referendar as conclusões do relatório entregue em junho pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), que apontava erros na execução da obra e falhas no processo de fiscalização.

Os outros 20% devem contemplar aspectos técnicos abordados nos dois laudos – apresentados em março e julho deste ano – pelo Consórcio Via Amarela, além de observações e comentários dos próprios peritos do IC.

Antes de ser anexado ao inquérito policial que apura as causas da tragédia, o laudo produzido pelo Núcleo de Engenharia do IC será levado à cúpula da Segurança Pública de São Paulo – o que deve ocorrer entre hoje e amanhã. Com o laudo oficial em mãos, a Polícia Civil e o Ministério Público Estadual terão condições de apontar eventuais responsáveis pelo acidente que deixou sete mortos em janeiro de 2007. Devem ser denunciados à Justiça (acusados formalmente) tanto funcionários do consórcio quanto do Metrô. Ainda não há prazo para que o inquérito seja finalizado.

 

 

 

 

 

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