Mais um encontro de resgate da memória de crianças vítimas da ditadura

24/05/2013

Comissão da Verdade

Em 16 abril de 1971, Ieda Seixas foi levada de casa, junto com a mãe, Fanny, e a irmã, Iara, para a sede da Operação Bandeirantes, em São Paulo. Lá já estavam presos seu pai, Joaquim, e o irmão , Ivan, ambos militantes do Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT). Ieda ficou presa um ano e meio. Assim como seus familiares, foi torturada por integrantes dos órgãos de repressão. Joaquim Seixas foi morto na Oban um dia depois da prisão da filha.

Nesta quinta-feira (25/4), Ieda e Ivan estavam mais uma vez juntos, na reunião da Comissão Estadual da Verdade Rubens Paiva, presidida pelo deputado Adriano Diogo. Ivan é assessor do órgão que trabalha para esclarecer a história dos anos de chumbo. Ieda prestou emocionado depoimento sobre seu irmão mais novo, Irineu, como parte da série de testemunhos que abordam a infância sob a ditadura.

Na época do golpe de 1964, Irineu tinha cerca de quatro anos. Seu pai, militante sindicalista e político, era funcionário da Petrobrás e tinha sido incluído no quadro de “expurgados” da empresa. Isso levou a família ” pai, mãe e os quatro filhos “, sob risco de prisão, a fugir para o Rio Grande do Sul.

“Para Irineu, esse período foi muito confuso. Ele era pequeno, mas conta que se lembra da sensação de insegurança que sentia”, conta Ieda.

Quando os Seixas retornaram a São Paulo em 1971 a sensação de perigo continuava e o próprio Irineu, aos dez anos, pediu para ir morar com uma tia, no Rio de Janeiro, relembra Ieda. Pouco tempo depois, toda a família foi presa, e Irineu só reviu a mãe e as irmãs em dezembro do mesmo ano, em uma visita ao presídio Tiradentes.

Fanny, Iara e Ieda ficaram presas por um ano e meio. Depois de libertadas, Irineu reuniu-se a elas para voltarem a viver juntos, “mas mesmo assim ele sempre ficou um pouco relegado, porque nossa grande preocupação era com Ivan, que continuava preso”, diz Ieda.

“Quando tinha uns 20 anos, conversando comigo, Irineu disse que só lembrava da imagem paterna quando via alguma fotografia. A única recordação que ele tinha do nosso pai era da nuca”, revelou Ieda. Possivelmente, ela avalia, era o que ele tinha gravado da viagem a Porto Alegre, quando ele ia sentado no banco de trás do carro. Só então Ieda contou ao irmão que o pai morrera sob tortura ” a versão antes narrada a ele era de que a morte se dera durante um tiroteio. Irineu chorou e teve, então, uma nítida lembrança da imagem do pai.

“A infância perdida é uma realidade. Aos dez anos, meu irmão passou a olhar o mundo como um adulto, a ter medo e uma sensação de perigo sempre presente. Ele só parou de ter medo quando o Brasil teve eleições livres, que acabaram levando à eleição de Collor”, transmitiu Ieda.

Hoje Irineu tem 53 anos e mora em São Paulo. Ele é tenso, revela Ieda. Não quis falar à Comissão da Verdade, e pediu que a irmã fizesse isso em seu nome.

Também falou à comissão Célia Coqueiro, filha de Aderval Coqueiro. Aderval militou no PCB e, posteriormente, no MRT. Preso e torturado no Dops/SP, foi banido para a Argélia em 1970, com outros 39 presos políticos, em troca da libertação do embaixador da Alemanha, Ehrenfried Von Holleben, sequestrado pela Ação Libertadora Nacional (ALN) e pela Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Voltou de Cuba clandestinamente em janeiro de 1971 e no mês seguinte foi morto em operação policial do DOI-Codi/RJ.

Célia tinha três anos e meio quando o pai foi preso, em 1969. Ela tem lembranças esparsas de visitas ao pai no presídio Tiradentes. Marcante, porém, é a memória da mãe chorando após ser avisada por uma vizinha que vira no jornal a notícia da morte de Aderval.

“Eu deitei no colo de minha mãe para ter certeza de que ela estava chorando, porque ela era uma mulher muito forte, nunca chorava”, contou Célia.

Após a morte do pai, um grupo de militantes achou que, por questões de segurança, a família tinha que deixar o país. Em novembro de 1971, a mãe e as filhas foram para o Chile. “Mas só consegui me sentir segura quando cheguei em Cuba, em 1973. A insegurança me acompanhou por muitos anos”, Célia revelou.

fonte: Agência Alesp

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