Nesta quinta: casos da Faculdade de Medicina de R. Preto

11/02/2015

CPI das Universidades

Serão coletados depoimentos referentes a casos na Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto

A CPI instalada na Assembleia Legislativa com a finalidade de investigar as violações dos direitos humanos e demais ilegalidades ocorridas no âmbito das Universidades do Estado de São Paulo, durante os chamados trotes, festas e no seu cotidiano acadêmico, prossegue com a coleta de depoimentos nesta quinta (12/2):

. Sr Danilo Aparecido Dias – Pai de aluno vítima de trote na Faculdade Oswaldo Cruz, na última semana, no dia 2/2/15

. Carlos Gilberto Carlotti Junior, diretor da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto

. Helio Cesar Salgado, vice-diretor da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto
. Guilherme Pianowski Pajanoti (estudante da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto – FMRP)

. Giovani Zacharias Rosa (estudante da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto – FMRP)

. André Lazzeri Cortez, estudante da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP)
Rafael Campiolo (convidado)

As audiências ocorrem abertas ao público na Assembleia Legislativa de SP às 14, no Auditório Paulo Kobayashi.

Estudantes negam caráter discriminatório e preconceituoso do Show Medicina

Mesmo confrontados com fotos e vídeos, eles não mudaram o discurso

Sob juramento, três estudantes da Faculdade de Medicina da USP que depuseram nesta terça-feira (11/2) à CPI que investiga violações dos direitos humanos nas faculdades paulistas reafirmaram o caráter cultural do Show Medicina, descrito como “representação alegórica e jocosa de situações vividas por estudantes e médicos no cotidiano da faculdade”.

Leonardo Turra, 21 anos, aluno do 4º ano da FMUSP, confrontado com fotos postadas por ele mesmo em sua página do Facebook, durante uma pichação na 70ª edição do Show Medicina, disse não lembrar sobre sua participação “na pintura”.

Questionado pelo presidente da CPI, deputado Adriano Diogo (PT), quanto a pichação ter sido feita sobre uma obra de arte de grafiteiros, esta autorizada pela prefeitura paulistana, Turra respondeu que não era o responsável pela divulgação do Show Medicina naquele ano.

À pergunta do deputado José Bittencourt (PSD) sobre a caveira, pichada por Turra e outros estudantes, no Complexo Viário Rebouças, o estudante explicou que se trata do símbolo do Show Medicina há mais de 40 anos.

Marco Aurélio (PT) quis saber se a participação no Show Medicina era coercitiva ou voluntária e Turra explicou que os atores entravam espontaneamente para desempenhar um ou vários papéis.

Serviço de Verificação de Óbitos

Sobre o arrombamento do Serviço de Verificação de Óbitos da Capital (SVOC), na noite de 16/9/2013, após embriagar-se num dos ensaios do Show Medicina, Turra negou o fato. Disse que foi um incidente, pois ao atender o celular, “apoiou o pé na porta do SVO, que se abriu”. Alegou ter tomado duas latas de cerveja e que, portanto, não estava embriagado. Ao ser confrontado pela deputada Sarah Munhoz (PCdoB) com o relatório final da comissão de sindicância da faculdade, assinado pelo médico Carlos Augusto Pasqualucci e com outro documento encaminhado pelo chefe da equipe do SVO, Edson Alves Moreira, em que Turra é acusado de “ato deliberado de dano ao patrimônio público”, o estudante respondeu que desconhecia o relatório, pois acreditava que a sindicância ainda estava aberta. Adiantou que vai entrar com recurso contra a acusação de dano e de transtorno mental.

Diogo perguntou ao estudante qual a reação dos pais dele, ambos médicos de Bauru. Turra respondeu: “normal, depois que expliquei os fatos a eles”.

“Não era Scalise”

O estudante Michel Oliveira Souza, 28 anos, do quinto ano da FMUSP também classificou de “alegoria fictícia” o papel que desempenhou no último Show Medicina, em que Felipe Scalise, do Núcleo de Estudos de Gênero, Saúde e Sexualidade, se viu representado. Segundo Souza, “seu papel é o de um personagem que acha, de forma erudita, que suas verdades tinham de ser a de todos”, dizendo que não representou o estudante Felipe Scalise. Diante da exibição do vídeo do Show Medicina em que fica clara a alusão a Scalise, Souza declarou que seu personagem “não se baseou em ninguém em particular” e que o papel foi escolhido pelo grupo.

Diogo indagou sobre o texto da peça, mas Souza respondeu que não o possuía, mas comprometeu-se a entregar uma cópia à CPI. O aluno disse que não assistiu a qualquer vídeo dos relatos feitos nas audiências da Comissão de Direitos Humanos de 2014, nem aos depoimentos feitos à CPI sobre denúncias contra veteranos da associação Atlética e integrantes do Show Medicina. Segundo ele, o Show abrange todos os grupos, ou seja, da associação Atlética aos homossexuais. “A convivência é tranquila em clima de amizade”, frisou. Entretanto, Diogo esclareceu ao depoente não ter dúvidas de que o último Show Medicina “foi homofóbico e destruiu a carreira de um jovem estudante; com o linchamento de um colega”. O presidente da CPI ainda observou que os depoentes “estão mal orientados, sempre na defensiva, numa atitude que fere a inteligência dos membros da comissão. O mínimo que vocês poderiam fazer é uma nota repudiando a postura homofóbica desse Show Medicina”.

Falas decoradas

À indagação de Adriano Diogo se os dirigentes do Show Medicina entregariam espontâneamente ou de forma coercitiva o texto dos espetáculos dos últimos cinco anos, Sílvio Tacla Alves Barbosa, aluno do 5º ano, disse não possuir tais textos, pois os atores decoram as falas nos ensaios. Tacla foi tesoureiro do Show Medicina em 2012 e secretário em 2013, ano em que também foi vice-presidente do Centro Acadêmico Oswaldo Cruz.

Diogo leu trecho de matéria da jornalista Malu Delgado, publicada na revista Piauí, em que o médico Dráusio Varella diz que já contribuiu com o livro de ouro do Show Medicina, mas que “de seu bolso não sairá mais um tostão”. Em outro parágrafo, ao saber das festas “Black tie”, com a participação de prostitutas no show de calouros, Varella declarou que “são um bando de boçais com o dinheiro de idiotas como eu”.

Tacla afirmou que há muita informação veiculada de forma errônea, mas que os fatos ali narrados não correspondiam ao Show Medicina da atualidade. Ao ser confrontado com vídeo de 2011, de um quadro com referências preconceituosaa e racistas aos nordestinos, o estudante argumentou que várias músicas têm conotação de crítica, mas a tônica geral não é de discriminação nem de ofensa pessoal.

Sarah Munhoz retrucou, observando que no vídeo exposto havia a menção a um professor em particular, Milton Arruda. Tacla respondeu que o Show Medicina sempre faz representação alusiva a um professor, o que não acontece com alunos em particular.

Professor titular de Clínica Médica há 20 anos e coordenador do curso de Medicina há dez, o professor Milton Arruda, presente na audiência, disse não que não se sentiu humilhado no contexto em que foi citado no Show, mas elogiado por ter sido lembrado como professor de dedicação exclusiva ao ensino público.

Entretanto, admitiu que o show tem um viés conservador, com quadros de mau gosto como o em que foi retratado Scalise. Segundo Arruda, o grande problema do Show Medicina são os ensaios fechados, que dão margem à violência. “Por que não fazem ensaios abertos?”, indagou o professor sem resposta dos estudantes.

fonte: Agência Alesp

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