Pesquisadores revelam participação francesa em instrução contra guerrilha no Brasil

18/12/2013

Comissão da Verdade

Ex-agente do serviço secreto francês trouxe técnicas de tortura a escolas militares

Pesquisadores ouvidos nesta terça-feira (17/12), pela Comissão Estadual da Verdade Rubens Paiva, revelaram influência francesa na formação de oficiais das Forças Armadas durante a ditadura militar instaurada em 1964 no Brasil. Fermino Fechio Filho e a jornalista Leneide Duarte-Plon relataram que oficiais franceses participaram ativamente de instruções em escolas militares nas décadas de 1960 e 1970, fornecendo técnicas de tortura e combate a guerrilhas.

O presidente da comissão, deputado Adriano Diogo, observou que essa participação francesa não foi muito divulgada, que se deu mais destaque à participação americana, lembrando o caso do sequestro do embaixador americano por militantes brasileiros. Fechio acrescentou que, embora milite na área dos direitos humanos há mais de 50 anos e tenha lutado pela criação da Comissão Nacional da Verdade, até pouco tempo também não sabia dessa participação francesa. “Não se acha quase nada nas publicações brasileiras a respeito desse assunto”, lamentou.

Ele relatou que o tema tem sido divulgado por livros publicados recentemente na França e por reportagens veiculadas no jornal Le Monde. Em 1981, uma entrevista do general Paul Aussaresses, ex-agente do serviço secreto da França, revelou a influência que os franceses exerceram nas escolas militares brasileiras, principalmente na de Manaus, onde ministraram cursos, sob pretexto de que a fronteira brasileira era desprotegida. Aussaresses, que se tornou amigo do ex-presidente Figueiredo, conforme relatos dos depoentes, faleceu no último dia 4/12.

Indochina e Argélia

O pesquisador afirma que os franceses se tornaram especialistas nas técnicas de tortura e interrogatório após sofrerem revezes nas guerrilhas da Indochina (1946 a 1954) e da Argélia (1954 a 1962). “Essas experiências possibilitaram que eles elaborassem instrução, cursos e cartilhas, preparando os militares brasileiros para atuarem na guerra anti-subversão”, afirmou Fechio.

Por meio de teleconferência, a comissão também ouviu Leneide Duarte, que vive em Paris e entrevistou Aussaresses em três ocasiões. Ela relatou que a forma de atuação das forças armadas francesas começou a ser desvendada desde uma entrevista que uma senhora argelina concedeu ao Le Monde, em 2000. Ela relatou que foi torturada e estuprada diariamente, às vezes em grupo, por soldados franceses. “Diante da enorme repercussão, o Le Monde procurou os oficiais franceses que comandaram essas operações de terror na Argélia”, afirma Leneide.

Na época, um general aposentado, bastante idoso e que servira na Argélia, disse em entrevista que estava arrependido pela sua participação naquela guerrilha. No ano seguinte, entretanto, ao contrário de seu colega, o general Paul Aussaresses declarou que não se arrependia de sua atuação e afirmou que “a tortura faz parte da estratégia para se obter a informação que se deseja”. Aussaresses assumiu que matou sumariamente 24 pessoas em uma sessão de torturas.

Leneide afirma que, embora Aussaresses tenha sido processado por entidade defensora dos direitos humanos, ele nunca foi punido por conta da lei de anistia francesa. Porém, as revelações, a postura fria do general e a banalização dada por ele à tortura trouxeram consequências: o então presidente da França, Jacques Chirac, cassou a medalha do general; suas três filhas obtiveram na justiça o direito de não mais levarem o sobrenome Aussaresses e sua esposa o expulsou de casa.

Ex-presidente Figueiredo

Indagada por Adriano Diogo a respeito de mais detalhes sobre a atuação de Aussaresses no Brasil, sua amizade com o presidente Figueiredo e o ciclo de relações que ele construiu com comandantes militares naquele período, a jornalista relatou que a atuação de Aussaresses se estendeu a outros países da América Latina, que também tiveram instruções de oficiais franceses.

Leneide informou que o teor completo das entrevistas realizadas com o general Aussaresses será lançado em livro no próximo ano, mas adiantou que de fato ele tinha íntima amizade com o general Figueiredo, motivada inclusive pelo fato de ambos possuírem formação e atuação nos serviços de inteligência de seus países.

fonte: Agência Alesp

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