Prêmio Beth Lobo homenageia mulheres que lutam contra repressão

05/03/2013

Direitos Humanos

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Prêmio Beth Lobo de Direitos Humanos homenageia mulheres que lutam contra repressão

Realizada pela Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa, presidida pelo Deputado Adriano Diogo, o Prêmio Beth Lobo de Direitos Humanos das Mulheres reconhece e valoriza o trabalho de pessoas, entidades e movimentos sociais que lutam pela defesa dos direitos humanos das mulheres e enfrentamento a violência contra as mulheres.

O projeto de resolução é de autoria do Deputado Adriano Diogo e da Deputada Leci Brandão, irá homenagear no dia 11 de Março mulheres que até hoje são símbolo de luta contra a repressão.
Em memória, o prêmio homenageia Zuleika Alambert (1922-2012) e Marcia Yajgunovitch Mafra (1947-2011), símbolos da luta pela redemocratização do país.

Entre as homenageadas, também estão Eleonora Menicucci de Oliveira, Damaris Lucena, Ilda Martins da Silva, Izaura Silva Coqueiro, Pedrina José de Carvalho, Pedrina José de Carvalho, Clara Charf, Eunice Paiva e Ñasaindy Barret de Araújo.

A cerimônia será realizada na próxima segunda-feira, dia 11 de Março, às 19 horas no Auditório Paulo Kobayashi, na Assembleia Legislativa de São Paulo – Av. Pedro Álvares Cabral, 201
Ibirapuera – São Paulo.

Homenageadas prêmio Beth Lobo

. Zuleika Alambert
(23 de dezembro de 1922 – 27 de dezembro de 2012)
Escritora, política e líder feminista, foi uma das duas primeiras mulheres a se eleger deputada estadual em São Paulo, em 1947, aos 25 anos. No ano seguinte, a santista foi cassada junto com todos os deputados do Partido Comunista Brasileiro (PCB), ao qual era filiada. Antes de ser cassada, apresentou um projeto que previa um abono de Natal aos trabalhadores assalariados e foi o embrião do 13º salário. Após o golpe militar de 1964, Zuleika saiu do Brasil para fugir da repressão e passou pela Hungria e pelo Chile. Em 1979, beneficiada pela Lei da Anistia, Zuleika voltou ao Brasil e passou a participar de movimentos de apoio às mulheres. Foi Secretária de Estado de Negócios Metropolitanos de SP, presidiu o Conselho Estadual da Condição Feminina e coordenou a Comissão de Educação, Cultura e Meio Ambiente. Escreveu livros como “Uma jovem brasileira na URSS” (1953), “Estudantes fazem história” (1964), “Feminismo: O Ponto de Vista Marxista” (1986) e “Uma mulher na História” (2004).

. Marcia Yajgunovitch Mafra
(26 de agosto de 1947 – 26 de junho de 2011)
Socióloga, ex-presa política, militou na organização de esquerda Ação Libertadora Nacional (ALN). Foi presa no início da década de 1970, onde ficou por três anos. Fez parte do grupo que fundou o Partido dos Trabalhadores (PT). Foi assessora da ministra Dilma, tanto no Ministério de Minas e Energia como na Casa Civil, onde fazia estudos sobre o impacto socioeconômico de grandes obras de engenharia e infraestrutura, como o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

. Eleonora Menicucci de Oliveira
Socióloga e feminista, a atual ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres é professora titular em saúde coletiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Foi militante da organização de esquerda Partido Operário Comunista (POC). Presa em 1971, passou quase três anos na cadeia. Como pesquisadora da Unifesp, publica regularmente artigos e estudos sobre temas críticos da condição das mulheres nos campos da saúde, violência e trabalho. Sua trajetória acadêmica é marcada por participações em conselhos e comissões e por consultorias em políticas públicas e direitos das mulheres.

. Damaris Lucena
Ex-militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), foi presa em 20 de fevereiro de 1970, em Atibaia (SP). Seu marido, Antônio Raymundo de Lucena, foi assassinado na frente da família. Ariston Lucena, o filho mais velho do casal, foi preso aos 18 anos de idade, após cerco empreendido aos militantes da VPR na área do Vale do Ribeira, e passou quase 10 anos preso, uma vez que foi condenado à pena de morte após a mudança da Lei de Segurança Nacional, em 1969. Damaris foi barbaramente torturada e sua libertação ocorreu quando foi trocada no sequestro do cônsul japonês, Nobuo Okuchi. Exilou no México e, depois em Cuba, onde reconstruiu a vida. A família retornou ao Brasil após a Anistia e, desde então, busca incessantemente pelos restos mortais de Antônio Raymundo de Lucena que, embora figure na lista oficial de “mortos”, permanece desaparecido, tendo sido enterrado, provavelmente, numa vala clandestina do Cemitério de Vila Formosa.

. Ilda Martins da Silva
Viúva de Virgílio Gomes da Silva, ex-operário da indústria química e dirigente da Ação Libertadora Nacional (ALN), torturado até a morte na Operação Bandeirantes, em 29 de setembro de 1969. Ilda foi presa com três dos seus quatro filhos, sendo a mais nova com quatro meses. Ilda também foi torturada e ficou presa por dez meses, sendo que em quatro deles esteve incomunicável. Perseguida após sair do Presídio Tiradentes, seguiu um ano depois para o exílio, inicialmente no Chile e depois em Cuba, de onde retornou após a formatura dos quatro filhos, em Havana.

. Izaura Silva Coqueiro
Viúva de Aderval Alves Coqueiro, metalúrgico, militante do Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT). Coqueiro foi banido do país em 1969 ao ser libertado da prisão em troca do embaixador alemão Von Holleben, que fora sequestrado pelos militantes de esquerda. Voltou na clandestinidade em 1971, quando foi morto em um prédio no Rio de Janeiro. Coqueiro foi o primeiro banido político do Brasil a ser assassinado pelo regime. Izaura teve que exilar-se em Cuba com duas filhas ainda pequenas, de onde só retornou após a anistia.

. Pedrina José de Carvalho
Companheira de Devanir José de Carvalho, dirigente do Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT), assassinado em abril de 1971. Devanir era operário e ligado ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Entrou para a luta armada com mais quatros irmãos, sendo que dois deles foram mortos e seus corpos, ocultados. Pedrinha chegou a ser presa nas dependências da Operação Bandeirantes por um mês. Perseguida pela ditadura, exilou-se com dois filhos a tiracolo. Primeiro foi ao Chile, depois à Argentina, passou por Portugal, e retornou ao País depois da Lei de Anistia promulgada em 1979.

. Elzita Santa Cruz
Mãe de 10 filhos, parte deles foi atingido pela ditadura militar, como Marcelo, que foi expulso da faculdade, Rosalina que foi presa e torturada. E por fim Fernando, seu quinto filho, preso e desaparecido em 23 de fevereiro de 1974. Foi a partir do desaparecimento do filho que começou a via-crucis de dona Elzita, a quartéis do Rio de Janeiro, Recife, de São Paulo, de cartas – sem resposta- a autoridades civis e militares.
A luta incansável da mãe de Fernando pelo esclarecimento da situação dos desaparecidos políticos no Brasil e por informações do paradeiro de seu filho é retratada no livro “Onde está meu filho”? É uma das lutadoras pela anistia e pela democratização do país e hoje, aos 99 anos, segue, ao lado dos filhos, em busca dos restos mortais de Fernando.

. Clara Charf
Foi filiada ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) de 1945 a 1960, teve a casa invadida e destruída no governo Jânio Quadros, e foi teve sua primeira prisão política ainda nos tempos de Getúlio Vargas. A viúva do dirigente da Ação Libertadora Nacional (ALN) Carlos Mariguella, morto em 1969, ficou exilada por nove anos e ajudou a fundar o PT. Hoje, Charf segue militando no PT, é membro da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher e preside a Associação Mulheres pela Paz.

. Eunice Paiva
Viúva do deputado estadual desaparecido político Rubens Paiva, no dia 20 de janeiro de 1971. Nesta data, a casa de Paiva ficou ocupada e Eunice e Eliane, sua filha de 15 anos, também foram levadas ao Doi-Codi/RJ, onde não conseguiram ver o marido e pai. Ambas foram interrogadas, e Eunice permaneceu doze dias incomunicável. Eliana foi libertada após 24 horas. Desde 71, Eunice vem travando uma batalha incansável em busca do corpo do marido e do direito de sepultá-lo, fato que até hoje não ocorreu.

. Ñasaindy Barret de Araújo
Filha de Soledad Barrett, paraguaia, e José Maria Ferreira de Araújo, brasileiro, militantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Ambos foram assassinados pela ditadura militar. Nascida em Cuba, em 1969, Ñasaindy voltou ao Brasil, junto os pais adotivos, em 1980, com 11 anos de idade. Seu pai foi morto durante tortura e sua mãe assassinada no chamado Massacre da Chácara São Bento, ocorrido em 1973, em Paulista, na Grande Recife.
Somente a partir de 1996, com a ajuda de indenização recebida pelo reconhecimentos de seus pais como “desaparecidos políticos” pela Comissão de Anistia, que começou um processo de restabelecimento das condições necessárias para ser naturalizada brasileira e assumir o nome verdadeiro dos seus pais, já que a mesma havia sido registrada com documentos falsos para despistar os militares.

Sobre Beth Lobo

Beth Lobo inovou, desde o início dos anos 1980, as pesquisas sobre gênero e trabalho no Brasil, dedicando-se ao ensino e à pesquisa nessa área a partir de 1982, no corpo docente do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP). Ela conceptualizou, a partir das práticas operárias da região do ABC paulista, a divisão do trabalho entre homens e mulheres e teve intenso intercâmbio intelectual com pesquisadoras da Europa, dos Estados Unidos e do Canadá.

Aliou perspectiva feminista e trabalho teórico, como suas precursoras Heleieth Saffioti e Eva Alterman Blay o fizeram. Estaria de acordo, certamente, com a afirmação da filósofa francesa Elsa Dorlin, de que “O sexo é, antes de mais nada, político”. Por isso, a problemática da dominação entre os sexos e suas consequências sempre foi central na Sociologia do Trabalho, na qual contribuiu, de maneira original, na estrutura e desenvolvimento no Brasil.

Sua morte prematura em março de 1991, aos 47 anos, impediu a realização de novas pesquisas, novas teorizações e intercâmbios, mas a disseminação de suas ideias se deu por colegas e discípulas, doutorandas e estudantes, como também pelas sindicalistas e militantes políticas com quem conviveu e trabalhou no dia a dia. Entre as especialistas da questão do gênero no Brasil, foi uma das primeiras a analisar o difícil acesso das mulheres aos postos de comando, sobretudo no campo político e sindical.

A atualidade das reflexões de Beth Lobo, como era carinhosamente chamada, se evidencia quando se compara o princípio de não hierarquização das diferenças, dos objetivos estratégicos, do “principal” e do “secundário” às teorias da “consubstancialidade”, de Danièle Kergoat, ou da “intersecionalidade”, de Kimberlé Crenshaw: relações de classe, sexo e raça estão imbricados e são indissociáveis. Nos seus estudos, privilegiou a questão da subjetividade e a intersubjetividade, um tema marcante de pesquisas recentes sobre as formas de gestão do trabalho e das relações sociais de gênero.

*Ass. Imprensa – dep. Adriano Diogo

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