PT já havia alertado sobre atuação do cartel no Uruguai

06/03/2014

Propinoduto tucano

Três empresas uruguaias contratadas pela Alstom e pela Siemens para dar consultoria sobre projetos do Metrô e da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) são de fachada.

Investigadores brasileiros e suíços suspeitam que essas empresas foram usadas para pagar propina a agentes públicos das estatais de São Paulo dentro do esquema do cartel.

A Gantown, a Leraway e a GHT Consulting usam como endereço em seus registros oficiais um imóvel comercial de Montevidéu onde funciona um escritório de contabilidade chamado Guyer y Regules. Esse escritório tinha como uma de suas especialidades criar sociedades anônimas, muito usadas para impedir a identificação de seus proprietários. Tal expediente era permitido no Uruguai até 2013.

A Polícia Federal e os órgãos de registro de São Paulo nunca conseguiram encontrar dados sobre essas empresas no Brasil ou suas atividades no País, apesar das tentativas.
A prática de contratação de consultorias fictícias para o pagamento de propina levou as duas multinacionais a serem condenadas judicialmente fora do Brasil. A Siemens foi condenada na Alemanha e nos Estados Unidos; e a Alstom, na Suíça.

O escritório que sedia as três empresas uruguaias não dispõe de expertise para prestação de serviços de consultoria na área de transportes. O Uruguai não tem tradição na área metroferroviária. Não tem metrô e dispõe de apenas uma linha de trens de passageiros que conta com cinco carros e transporta somente cerca de 1.200 pessoas por dia.

Primeiro documento do inquérito é uma representação do PT de 2008

Há quase seis anos, autoridades brasileiras têm indícios de que parte do suposto esquema de corrupção da Alstom e da Siemens passava por empresas uruguaias, mas nunca fizeram nenhum pedido de cooperação ao país vizinho.

O primeiro documento do inquérito sobre a Siemens da Polícia Federal é uma representação de cinco páginas do então líder do PT na Assembleia de São Paulo, Roberto Felício, em agosto de 2008. Ele relatou ao procurador Rodrigo de Grandis, do Ministério Público Federal, que recebera documentos nos quais se denunciava a prática de atividades ilícitas da Alstom e da Siemens no Metrô e na Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM).

Tratava-se de dois contratos idênticos feitos pela Siemens com as empresas uruguaias Gantown e Leraway, bem como de cópia da carta anônima enviada ao ombudsman da Siemens na Alemanha – que, como depois se revelou, era de autoria de Everton Rheinheimer, principal delator de corrupção do cartel de trens. A carta foi dirigida a diversos promotores e procuradores estaduais e federais. Nela, Rheinheimer dizia que, além das empresas brasileiras Procint e Constech, os consultores Arthur Teixeira e Sérgio Teixeira – este já falecido – usavam as uruguaias Gantown e a Leraway para pagar propina no Brasil.

O jornal Estado de S. Paulo consultou autoridades responsáveis pelo combate à lavagem de dinheiro no Uruguai. Todas afirmaram que a maior parte da cooperação internacional do País é feita com Argentina e Brasil. Todas estranharam que o Brasil nunca tenha pedido cooperação. “Travas legais como segredos bancários são superadas facilmente com um pedido bem fundamentado. Judicialmente se levanta tudo rapidamente, algumas coisas em questões de horas”, afirmou o secretário nacional Antilavagem de Dinheiro do Uruguai, Carlos Díaz.

Questionado, o procurador Rodrigo de Grandis disse que não poderia se manifestar por não ter tido acesso aos autos.

A procuradora Karen Kahn, que esteve à frente do inquérito do caso Siemens até que ele foi enviado em dezembro ao Supremo Tribunal Federal (onde foi desmembrado e retornou ao Ministério Público Federal, ficando a cargo de Rodrigo De Grandis), afirmou que “estava em vias” de pedir essa cooperação, quando o caso foi para o STF. No fim do ano, ela pediu cooperação à Alemanha e à Inglaterra. O Uruguai “não tem tradição de cooperar com o Brasil”, afirmou, mas é “um dos próximos países para a gente cutucar”. O promotor Silvio Marques, do Ministério Público, que conduz as investigações do caso Alstom na esfera paulista, não quis se manifestar alegando que o caso está sob sigilo.

Fonte: jornal O Estado de S. Paulo

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