Relato dos testemunhos das últimas audiências da Comissão da Verdade

12/08/2013

Cidadania

As audiências da Comissão Estadual da Verdade realizadas nos últimos dias 8 de agosto, 18 e 31 de julho ouviram testemunhos sobre a Chacina da Lapa; do líder estudantil Ronaldo Mouth Queiroz e de estudantes de medicina da USP e membros do Centro Acadêmico Osvaldo Cruz

A Chacina da Lapa

A Comissão Estadual da Verdade Rubens Paiva, presidida pelo deputado Adriano Diogo, realizou no dia 8/8 sua 60ª audiência pública, quando foi abordado o assassinato de três dirigentes do PCdoB na ação que ficou conhecida como Chacina da Lapa, ocorrida no dia 16/12/1976.

Na ação coordenada pelo 1º Exército, do Rio de Janeiro, e o 2º, de São Paulo, com participação do Dops paulista, houve ataque a tiros à casa da rua Pio 11, 767, bairro da Lapa, capital. Sem que tivessem tempo de esboçar resistência foram mortos Ângelo Arroyo e Pedro Ventura Felipe de Araújo Pomar.

A única sobrevivente foi Maria Trindade. Nos laudos oficiais consta que houve resistência. Foram plantadas armas e os corpos foram mexidos para montagem de cena que corroborasse os laudos.

Na véspera da ação, havia sido preso João Batista Franco Drummond, também do Comitê Central do partido que, no processo de torturas do DOI-Codi, conseguiu fugir, mas acabou morrendo ao cair de uma torre de rádio do órgão policial. No laudo oficial, está escrito que ele teria morrido atropelado ao tentar fugir do cerco no bairro de Bela Vista, também na capital paulista, quilômetros distante da Lapa.

Militante histórico

“O caso é um amontoado de mentiras”, disse Pedro Estevam da Rocha Pomar, neto de Pedro Pomar, ao citar “as mentiras escandalosas dos laudos”. Sobre o caso, escreveu o livro Massacre na Lapa ” Como o Exército liquidou o Comitê Central do PCdoB, São Paulo, 1976.

A ação da Lapa, contou Pomar, começou no Rio de Janeiro, após a prisão do dirigente do PCdoB Jover Teles que, em troca de dinheiro e empregos, delatou a casa, onde eram realizadas reuniões partidárias. Para Pomar, não era necessário realizar o que foi descrito por testemunhas como “fuzilaria”. A casa estava sendo monitorada há dias, e alguns dirigentes do PCdoB já haviam sido presos na véspera.

Também todos os presos foram barbaramente torturados, tanto em São Paulo como no Rio, para onde foram levados posteriormente, inclusive Elza Monnerat, que contava na ocasião com 63 anos de idade. Pedro Pomar destacou que a ação ocorreu em 1976, quando o general Dilermando Monteiro comandava o 2º Exército, num período já de distensão política. Foi o último ano de ação da ditadura, após as mortes de Vladimir Herzog e Manoel Fiel Filho.

Ele falou sobre a trajetória política no Partido Comunista de seu avô, que chegou a ser deputado federal no fim dos anos 1940. Comentou ainda a militância política de Ângelo Arroyo, morto aos 48 anos, e João Batista Franco Drummond, morto aos 34 anos.

Retificação de atestados

Coordenadora da Comissão da Verdade, Maria Amélia Teles também falou sobre Pedro Ventura Felipe de Araújo Pomar, “uma figura admirável”, nascido no Pará em 1913. Era um dos maiores intelectuais do partido, disse. Esta visão foi corroborada por Marília Andrade, para quem Pomar era, além de um chefe político, um orientador, um pai.

O atestado de óbito de João Batista Franco Drummond foi contestado pela sua família, que entrou com processo para retificá-lo. Pedem para que a causa mortis seja por tortura e que o local seja mudado para o DOI-Codi. Houve ganho de causa, informou Renan Quinalha, da Comissão da Verdade. Mas o Ministério Público recorreu da alteração da causa da morte, e a questão está ainda pendente.

Gustavo Reis, representante da Defensoria Pública do Estado de São Paulo, informou que em breve haverá reunião sobre os cerca de 150 casos de retificação de atestados de óbito que precisam ser resolvidos.

A trajetória de Ronaldo Mouth Queiroz

Em 18/7, a Comissão Estadual da Verdade abriu espaço para ex-colegas de faculdade de Ronaldo Mouth Queiroz fazerem um relato da convivência com este líder estudantil vinculado a ALN (Aliança Libertadora Nacional), que foi executado por integrantes das forças de repressão durante a ditadura militar.

Ronaldo era estudante da Geologia da USP, dirigiu o DCE (Diretório Central dos Estudantes) a partir de 1970 e foi um dos responsáveis por manter o movimento estudantil ativo apesar da intensa repressão.

O integrante da ALN foi morto a tiros no dia 6/4/1973, num ponto de ônibus da avenida Angélica, em São Paulo, por, segundo informações do livro Memorial de uma Guerra Suja: Paulo Jorge, tenente da PM; Ademar Augusto de Oliveira (Fininho), policial civil; Claudio Guerra e pelo sargento Jair.

Farsa

Como em outros casos de mortes realizadas por forças do regime militar, a morte de Ronaldo foi atestada pelos legistas Isaac Abramovitc e Orlando Brandão como resultante de uma troca de tiros. Esta versão é contestada a partir do testemunho de Sidnei Queiroz e de Paulo Antônio Guerra, que estavam no mesmo ponto de ônibus que Ronaldo.

“Quando esperava o ônibus num ponto da avenida Angélica, Ronaldo foi assassinado por agentes do Dops: um tiro abaixo do lábio esquerdo e outro no hemitorax esquerdo”, afirmou Sidnei em seu depoimento ao GTNM/RJ.

Paulo Guerra dá mais detalhes: “três homens desceram de uma perua veraneio: um japonês, um de aparência forte e outro de barba, vestindo jaqueta azul e de arma na mão. Um deles disse: É esse, é esse”.

Depois, segue Paulo Guerra: “o de jaqueta azul friamente disparou um tiro no Ronaldo, que caiu, mas o assassino disparou outro tiro de cima para baixo, embora não houvesse resistência. Depois o agente do Dops colocou um revólver na mão de Ronaldo, outro na cintura e uma pequena agenda no seu bolso. Depois mentiram, como sempre, aos jornais que houve um intenso tiroteio”.

Segundo revelações do ex-agente do DOI-CODI/SP, Marival Chaves do Canto, à revista Veja, Ronaldo e outros militantes da ALN foram denunciados pelo médico João Henrique Ferreira de Carvalho, o Jota, que era um agente infiltrado no movimento estudantil. A atuação de Jota redundou na morte de mais de 20 pessoas.

Solidário

Uma palavra comum aos relatos de três colegas de faculdade que depuseram na Comissão da Verdade era a de que Ronaldo Mouth Queiroz era um amigo solidário para todas as horas e um apaixonado pela geologia.

João Jerônimo, Jobe de Jesus Batista e Amado Matos recordaram diversos fatos da convivência com Ronaldo e destacaram que ele tinha bom humor e facilidade para escrever e transmitir suas ideias. “Era um rapaz empenhado em melhorar o Brasil.”

O presidente da comissão, Adriano Diogo, também deu seu testemunho da convivência que teve com Ronaldo e destacou sua clareza política e seu empenho em reorganizar o movimento estudantil.

Diogo sugeriu que os colegas da geologia deveriam se organizar para pedir a reparação política de Ronaldo já que não existem mais familiares vivos para pedir indenização.

Casos de militantes torturados e mortos

Na reunião da Comissão Estadual da Verdade Rubens Paiva realizada, em 31/7, foram apresentados os casos de Gelson Reicher e Antônio Carlos Nogueira Cabral, ambos torturados e mortos durante o período do regime militar. Familiares e amigos compareceram para relembrar os fatos e colaborar na elucidação dos detalhes que permeiam a morte dos homenageados.

Presidida pelo deputado Adriano Diogo (PT), a Comissão ouviu o psicanalista e ex-preso político Reinaldo Murano, que entrou no curso de medicina da USP um ano antes de Reicher e Cabral e, juntos, participaram do Centro Acadêmico Oswaldo Cruz (Caoc), nos cargos de presidente e vice. Segundo Murano, os dois jovens se distinguiam dos demais por conta da vontade de participar de todas as ações do Caoc. Naquela época, havia os diretórios de chapa branca, que recebiam dinheiro da ditadura para promovê-la. Assim, nos anos de 1968 e 1969, em forma de oposição, decidiram disputar a presidência do diretório acadêmico. “A dupla tinha um compromisso ideológico com os interesses da maioria da população brasileira e, se estivessem vivos hoje, estariam com certeza lutando contra o corporativismo”, afirmou.

Museu de horrores

Ainda segundo Murano, durante sua prisão por agentes da repressão, dividiu a cela com um cabo do Exército chamado José Mariani que, após depor no prédio da Auditoria Militar, o próprio juiz determinou que ele fosse torturado. Isso ocorreu no subsolo do prédio. Diante desse fato, Murano parabenizou a comissão pela conquista de transformar o prédio da Auditoria, localizado na avenida Brigadeiro Luis Antônio em um local preservado, devido a sua importância histórica por ter servido como instrumento de tortura durante a ditadura militar.

Felícia Reicher, irmã do militante Gelson Reicher, compareceu à reunião e citou a frase, “devemos conhecer a verdade para que não se cometam os mesmos erros”. Felícia falou que desde pequena ouvia de seus pais, imigrantes poloneses, histórias sobre a perseguição aos judeus por parte dos nazistas alemães. Essa era a forma de a família não esquecer o ocorrido. Disse que seu pai, de ideologia esquerdista, se culpou após a morte do filho por acreditar tê-lo incentivado a participar do movimento. Felícia, muito emocionada, afirmou desconhecer todas as atividades de seu irmão e que, antes de ser morto, ele já havia saído de casa por conta da militância.

O clima de medo e terror durante a ditadura militar, principalmente quando algum conhecido ou familiar era militante, foi lembrado por Geraldo Blay Roizman, que na época, com apenas sete anos, soube da morte de Reicher.

Comissão da Verdade da UNE

O sociólogo e coordenador da Comissão da Verdade da União Nacional dos Estudantes (UNE), Carlos Henrique Menegozzo, elucidou o trabalho realizado pela Comissão da UNE, lançada no início do ano, o qual se separa em três frentes. A primeira busca montar relatórios de casos mal resolvidos, como o de Honestino Guimarães, desaparecido até hoje; a segunda visa recolher informações da UNE, principalmente nos anos de 1969 a 1973, e a terceira para promover o debate político e elucidar os casos dos membros mortos e desaparecidos.

Por terem participado do Grupo de Teatro Medicina (GTM), o presidente Adriano Diogo solicitou que documentos referente aos textos de Reicher e Cabral fossem solicitados ao GTM para ajudar no esclarecimento do caso e garantiu que haverá uma sessão da Comissão Estadual da Verdade para tratar especificamente da Comissão da Verdade da UNE.

Personagens em destaque

Gelson Reicher, militante da Ação Libertadora Nacional (ALN) e morto em 20 de janeiro de 1972, foi estudante do 5º ano de Medicina na USP e diretor do Centro Acadêmico Osvaldo Cruz. Ajudou a fundar os jornais 1º de Maio, Ação e O Guerrilheiro. Na versão oficial de sua morte consta que o carro em que se encontrava passou o farol vermelho em alta velocidade e, ao serem interceptados por policiais, saíram do carro atirando. Motorista e carona são mortos a tiros. Fotos encontradas no arquivo do Dops-SP indicavam prováveis escoriações e hematomas. O depoimento de um preso contando o paradeiro de Raicher também foi encontrado, derrubando, assim, a versão de encontro casual entre os agentes repressores e Raicher.

Um fato que intrigou toda a família foi o fato de que a autópsia foi realizada pelo médico-legista Isaac Abramovitc, amigo da família de Reicher, mas mesmo assim, emitiu laudo e atestado de óbito com o nome falso, permitindo que o corpo fosse enterrado como indigente em Perus. Posteriormente, ele alegou não ter reconhecido o rosto do autopsiado. O corpo só foi recuperado devido ao fato de terem assinado o laudo com o nome falso e o verdadeiro.

Antônio Carlos Nogueira Cabral, militante da Ação Libertadora Nacional (ALN) e morto em 12 de abril de 1972. Estudante de Medicina na USP foi presidente do Centro Acadêmico Osvaldo Cruz. Sua prisão foi declarada como desconhecida e a notícia de sua morte foi publicada nos jornais apenas seis dias depois. Segundo a versão oficial contida no auto de exame cadavérico, Antônio Carlos foi morto à bala em aparelho subversivo após reagir a prisão. O caixão foi entregue à família lacrado e com ordens para não ser aberto.

As duas únicas fotos de seu corpo encontradas nos arquivos do IML-RJ, junto a dezenas de outras, sem qualquer identificação, mostram visíveis marcas de tortura: escoriações nas mãos, no tórax, no rosto, faces e testa. Algumas são descritas na necropsia, outras não. Em 2007, foi inaugurado, na sede da entidade estudantil, um memorial com fotos e textos, em homenagem a Antônio Carlos Nogueira Cabral e Gelson Reicher.

fonte: Agência Alesp

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