Show Medicina da Faculdade de Medicina da USP é tema de CPI

28/01/2015

Violência nas universidades

As atividades do Show Medicina da USP foram o tema da reunião do dia 27/1 da CPI instaurada para investigar as denúncias de violações aos direitos humanos nas universidades. No início da reunião, também foram aprovados diversos requerimentos de interesse da CPI, a maioria convocando reitores, diretores de faculdades e também alunos.

O primeiro a depor foi o médico psiquiatra Leon Garcia, formado pela Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), que participou em seus anos de estudante do Show Medicina. Ele narrou as provas de seleção, que consistiam em prova escrita e também de apresentação no palco, com nudez e obrigatoriedade de cumprir ordens degradantes, sendo que não havia possibilidade de fuga. Há orientação de que os partipantes mantenham segredo sobre as atividades, sob pena de futuro prejuízos acadêmicos e profissionais, afirmou.

O psiquiatra disse ainda que nos esquetes do Show Medicina “a graça é fazer piadas com minorias sociais, sexuais e raciais, e com outras profissões da medicina, que são consideradas inferiores. Às alunas participantes resta o trabalho de costura dos figurinos, enquanto que aos alunos, chamados de “estrelos”, cabe a parte criativa da apresentação, representando também os papéis femininos”.

Leon Garcia ainda contou que, em seu terceiro ano de curso, em 1993, participou da diretoria do Centro Acadêmico Oswaldo Cruz (Caoc). O jornal da entidade, Bip, denunciou a prática de fraude nas listas de presença nas aulas no jornal, sendo que houve retaliação contra o Caoc, em forma de depredação da sede e faixas agressivas. De fato, passou após a denúncia a ser evitado por colegas, mas não teve obstruções em sua residência, embora posteriormente tenha sabido que houve pressões para que não fosse aceito.

Em sua análise, Garcia afirmou que há uma “cultura de considerar a FMUSP acima da lei e da sociedade, esquecendo-se do fato de que é uma instituição pública, que recebe grandes investimentos públicos”. Ele lamentou que a FMUSP não se preocupe com a formação ética e em cidadania dos alunos e que ex-alunos, médicos e professores se omitam diante das denúncias, continuando a colaborar com o livro de ouro que financia o Show Medicina.

Depoimentos

Três alunos da FMUSP prestaram depoimento, quando foram questionados pelos deputados Marco Aurélio Garcia (PT) e Sarah Munhoz (PCdoB), além do presidente da CPI, deputado Adriano Diogo (PT), que lamentou que os outros três convocados se ausentaram e sequer enviaram justificativas.

O primeiro a falar foi Vinicius Diniz, estudante do sexto ano da FMUSP, e membro há quatro anos do Show Medicina, no grupo de balé e sendo diretor de iluminação. Ele participou da apresentação que teve como tema Ópera do Malandro, mas não de sua concepção. Disse também que o tema foi definido em 2013, antes de terem havido as denúncias sobre trotes, e não considera que a apresentação tenha procurado satirizar alguma pessoa específica.

Apresentado anualmente, no mês de outubro, o Show Medicina consiste de uma apresentação teatral, de cunho satírico, com temas diversos, mas sempre versando o cotidiano dos alunos, disse Vinicius Diniz. Os fatos narrados por Leon Garcia, que teriam ocorrido em seu “vestibular” para o Show Medicina, não ocorrem mais, garantiu. Hoje se trata de teste escrito e um teste de aptidão cultural, como uma apresentação artística.

Diniz disse que não teve benefício por participar, pois os ensaios tomam muito tempo, já que são realizados no período noturno, até altas horas. Também aluno do sexto ano da FMUSP, Renan Maloni Augusto confirmou o modo de entrada no Show Medicina citado por Vinicius Diniz.

Residente do terceiro ano na área de psiquiatria, Artur Danila contou sua trajetória na FMUSP e sua atuação no reestabelecimento da Associação dos Médicos Residentes. Ele falou que presidiu o Caoc em 2008, e também participou do Show Medicina, que considera ter como missão “criticar pela arte os entraves que a sociedade tem”. Porém, reconheceu que há melhoras possíveis, como permitir a participação mais ativa das mulheres.

A seguir, o professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq ) professor Antonio Ribeiro Almeida Júnior enumerou diversos casos de trotes violentos, usando notícias que foram divulgadas na imprensa. Com isso, quis mostrar que os trotes violentos são prática comum não só no Estado de São Paulo, como em todo Brasil. Esses dados comporão o relatório da CPI. Os deputados Marco Aurélio Garcia e Sarah Munhoz comentaram os depoimentos, considerando que mostram “duas fotografias diferentes do mesmo fato”, como disse a parlamentar.

Requerimentos aprovados

No início da reunião, os componentes da CPI aprovaram requerimentos, todos de autoria do presidente Adriano Diogo, a maioria de convocação de reitores, diretores de faculdades e também alunos de diversas faculdades de medicina, como Unifesp, Unicamp, PUC de Sorocaba e Campinas, e também da Faculdade de Odontologia da USP. Houve debate entre os parlamentares sobre a forma de convocação dos depoentes, com ponderações dos deputados já citados e também de Fernando Capez e Carlos Alberto Bezerra Jr., ambos do PSDB.

Ainda foi aprovado pedido de realização de uma audiência pública na Câmara Municipal de Campinas para colheita de depoimentos e oitiva de autoridades das universidades da região e pedido de auxílio das polícias Civil e Militar para que atuem se for ocaso de condução coercitiva de depoentes.

Também foi aprovado pedido para que o Tribunal de Contas do Estado de São Paulo designe auditor técnico para analisar as contas e documentos fiscais. Esses documentos foram requeridos junto à B2 Agência Ltda. e Ambev, e também junto à Associação Atlética Oswaldo Cruz (AAOC), da FMUSP.

O presidente Adriano Diogo anunciou que novos requerimentos serão aprovados na reunião da CPI a ser realizada dia 3/2, às 14 horas. Lembrou ainda que na próxima reunião, dia 28/1, deverão comparecer alunos da FMUSP que tiveram ou têm participação na Associação Atlética.

Fonte: Portal Alesp

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