Tucanos descartam projeto pronto de Burle Marx e desperdiçam dinheiro público

08/03/2010 13:30:00

Parque Várzeas do Tietê

Você jogaria fora um projeto de Picasso? E uma partitura de Tom Jobim? Guardadas as proporções, é o que o governo paulista fez no parque Várzeas do Tietê, concebido com o objetivo de reduzir o impacto das enchentes. Um projeto de paisagismo de 1974 de Roberto Burle Marx foi descartado na retomada do projeto no ano passado.

Burle Marx (1909-1994) é considerado o mais importante paisagista do século 20 e apontado como o inventor do jardim moderno. Entre outras obras, criou os jardins do aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, e do Itamaraty, em Brasília.

O Várzeas do Tietê é apresentado pelo governo como o maior parque linear do mundo, com 75 km de extensão. Na sua área, de 107 km2, caberiam 71 parques como o Ibirapuera.

O descarte do projeto foi feito pelo arquiteto Ruy Ohtake, que trabalhou no projeto de 1974 e coordena a implantação do novo parque: “O projeto original era uma beleza. Mas não dá para aproveitar porque houve muitas invasões”, disse.

O novo projeto paisagístico está sendo feito pelo arquiteto Olair de Camilo. A obra mais conhecida de Camilo são os jardins do Instituto Tomie Ohtake, a mãe de Ruy Ohtake.

A secretaria de Energia e Saneamento da gestão José Serra (PSDB), Dilma Pena, apoia a decisão de Ohtake: “São Paulo mudou muito desde 1974”. A pasta contratou o escritório de Ohtake por R$ 5,2 milhões.

O arquiteto Haruyoshi Ono, que trabalhou com Burle Marx desde 1965 e dirige no Rio a empresa que foi do paisagista, diz: “Não é que a gente queira ser chamado para fazer o parque, mas acho ruim o governo pagar por um novo projeto quando já existe um pronto.”

Para Ono, coautor do projeto original, seria possível adequar as ideias de 1974 para os dias atuais sem dificuldades, já que Burle Marx tinha uma gramática muito clara, com uso de mata nativa e outras plantas formando manchas geométricas como num quadro.

O arquiteto e crítico de arte Lauro Cavalcanti, curador da exposição sobre o centenário de Burle Marx no ano passado, afirma que nenhuma cidade no mundo pode descartar um projeto do paisagista.

Se tivesse sido executado integralmente em 1974, São Paulo teria uma das maiores obras de Burle Marx. A área prevista era de 57 km2. O projeto, guardado em seu escritório em Laranjeiras (zona sul do Rio), tem 22 pastas com cem folhas em formato A0 (0,84 m x 1,19 m).

Burle Marx incluiu no projeto o paisagismo das marginais do Tietê e Pinheiros. A proposta incluía museus e centros científicos. O conceito de centro ecológico era assinado pelo geógrafo Aziz Ab Saber, um dos mais prestigiados do país.

Disso tudo, só dois núcleos foram construídos: o que abriga o parque ecológico do Tietê, na divisa de São Paulo com Guarulhos, e outro em Barueri.

Não é o primeiro projeto de Burle Marx que SP não usa. O Ibirapuera, inaugurado em 1954, deveria seguir um desenho do paisagista, mas só uma pequena parte foi executada. São as áreas próximas à Bienal e ao Museu de Arte Moderna. O resto foi feito por Otávio Augusto Teixeira Mendes, engenheiro agrônomo e paisagista. Em 1973, Burle Marx projetou um parque de 160 mil m2 na represa de Guarapiranga, que não saiu do papel.

fonte: Folha de S. Paulo – 7/3/2010

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