Violência no campo desde 1946 é abordada na Comissão da Verdade

17/12/2013

Audiência pública

Segundo estudioso, mais de 300 mil camponeses foram afetados por violações aos direitos humanos

A repressão aos movimentos dos trabalhadores rurais entre os anos 1946-1988 foi o tema da 107ª reunião da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo Rubens Paiva, realizada nesta segunda-feira (16/12). Foi também a primeira reunião do grupo de trabalho sobre o tema no âmbito da Comissão Nacional da Verdade, que teve representantes no evento.

Professor de História do Brasil na Unifesp e pesquisador do Núcleo de Estudos, Pesquisas e Projetos de Reforma Agrária (Nera), Cliff Andrew Welch apresentou estudo que mapeia os tipos de violações aos direitos humanos que atingem a área rural do Estado de São Paulo. No período 1946-1988, foram 465 casos, que afetaram mais de 300 mil pessoas. O maior número de violações apuradas no período são ofensas aos direitos trabalhistas, seguidas de deslocamentos forçados por expulsão de agricultores, pelo avanço do agronegócio ou por especulação imobiliária.

Respondendo a questionamento do presidente da comissão, deputado Adriano Diogo, Cliff Welch afirmou que os conflitos agrários na região do Pontal do Paranapanema se aguçaram depois de 1964. Grileiros começaram a desmatar a área irregularmente, pois era região de preservação. A troca do cultivo do café pela cana deveu-se primeiramente pelo envelhecimento da plantação. Também porque após a revolução cubana aumentou a demanda dos EUA por açúcar, por conta do embargo imposto à ilha e, nos anos 1970, por conta do álcool combustível.

Lutas emblemáticas

O professor Welch falou ainda das lutas emblemáticas no campo paulista no período 1946-1963. A principais foram as Ligas Camponesas (1946-1949), em Santo Anastácio, liderada por Nestor Vera e organizada pelo PCB; e a Guerra do Capim (1959-1960), em Santa Fé do Sul, quando 800 famílias de arrendatários, lideradas por Jofre Correia Netto, se recusaram a deixar as terras cultivadas.

Professora do Departamento de Geografia da USP, Larissa Bombardi discorreu sobre sua tese Conflitos no Campo em São Paulo e a Mobilização Camponesa entre os Anos de 1945 e 2000. Apresentou mapas com os tipos de conflitos que ocorreram no Estado durante o período. Durante a ditadura, as regiões com maior ocorrência de conflitos foram o litoral e o Vale do Ribeira, por conta da especulação imobiliária e a criação de parques estaduais.

Durante a construção da hidrelétrica de Ilha Solteira, o líder messiânico Galdino encabeçou a luta dos camponeses contra a inundação de suas terras. Ele foi preso pela Lei de Segurança Nacional e acabou internado por 12 anos no manicômio do Juquery, contou Larissa. E a igreja católica, à época, por conta da Teologia da Libertação, teve grande papel na articulação dos camponeses, relatou a professora.

“A partir de 1980, os conflitos crescem na região do Pontal do Paranapanema por conta do avanço do agronegócio”, disse a professora. Ela destacou que “só houve no Estado de São Paulo reforma agrária em áreas onde houve luta dos camponeses”.

Criada com base no Estatuto da Terra, que foi uma resposta da ditadura à Ligas Camponesas, a Associação Brasileira da Reforma Agrária (Abra) foi o único instituto que abordava o tema durante o regime militar, disse Sonia Moraes. Desde sua fundação, em 1969, tem divulgado dados sobre a violência no campo e a morte de boias-frias.

História de militantes

Omene Vera Martins falou sobre seu tio Nestor Vera, das as Ligas Camponesas. Ele, que nunca deixou de militar, foi preso pelo Dops e assassinado em 1975. Martins narrou a história da família, de origem espanhola, e sobre a militância de Nestor. Segundo ele, a indignação com a situação dos agricultores levou seu tio a se filiar ao PCB em 1947. Foi exibido depoimento de Cláudio Guerra, que confessou ter assassinado Nestor, cujo corpo ainda está desaparecido.

O padre holandês Renné Parren falou de sua atuação desde 1969 na luta agrária brasileira e sua participação na fundação do Movimento dos Sem Terra (MST). Contou da luta dos camponeses no assentamento da Fazenda Primavera, em Andradina, em terras griladas pela família Abdalla. “A ditadura fez de tudo para acabar com qualquer movimento social”, disse Parren, ao narrar a repressão que havia na época. Hoje, ele preocupa-se com o avanço do agronegócio, bancado financeiramente pelo governo.

Thaelman Carlos Martins falou sobre seu pai, Edgard de Almeida Martins, militante do PCB e um dos organizadores do movimento de camponeses conhecido como O Levante de Tupã. Sua história está no livro Clandestino.

Coordenador da Comissão da Verdade Rubens Paiva, Ivan Seixas lembrou que o grupo de trabalho fará um relatório sobre a repressão no campo a ser enviado à comissão nacional. Entre os encaminhamentos futuros, estão a organização de diversas audiências públicas no interior do Estado, em 2014, em áreas onde houve conflito agrário.

fonte: Agência Alesp

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