Voo da morte: especialistas apresentam os efeitos da pulverização aérea de agrotóxicos

28/09/2017

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A pulverização aérea de agrotóxicos tem deixado um rastro de mortes e doenças no país. Em audiência pública promovida pela deputada Ana do Carmo nesta quinta-feira, 27/9, na Assembleia Legislativa, foi apresentado um quadro preocupante dos efeitos dessa prática, amplamente utilizada pelos grandes produtores agrícolas do Estado.

Com a participação de defensores públicos, promotores de justiça, médicos, deputados estaduais e o deputado federal Nilton Tatto, presidente da Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados, a audiência explicitou várias consequências da pulverização de defensivos agrícolas feitas por aviões: contaminação do solo e da água, destruição da fauna, afetação de propriedades de pequenos produtores de produtos orgânicos e crescimento de doenças e mortes causadas por condições ambientais.

O defensor público do Estado de São Paulo Marcelo Carneiro Novaes foi enfático ao dizer que não sabemos nada sobre a utilização de agrotóxicos no Brasil. Um elevado número de componentes químicos dos defensivos agrícolas simplesmente não é conhecido. Não há informação nos rótulos dos produtos comercializados sobre 54% dos componentes dos produtos formulados, sob a justificativa de assegurarem os segredos de patentes. Substâncias proibidas em diversos países são utilizadas, sem parcimônia e em grande escala, no Brasil.

Segundo Novaes, os órgãos de controle e fiscalização não são impermeáveis a influências econômicas, como seria o desejável. Não existe um sistema de fiscalização de água e alimentos, nem políticas públicas que evitem os efeitos nocivos da pulverização de agrotóxicos. Ele destacou ainda que o Estado não cumpre seu papel para impedir e mitigar os efeitos da pulverização. Ao contrário, estimula a prática por meio de desonerações fiscais que beneficiam o agronegócio e as indústrias de agrotóxicos.

A médica do trabalho Telma de Cassia dos Santos Nery disse que não faltam estudos que atestem os efeitos nocivos dos agrotóxicos. O que falta é a divulgação deles.
Sobre a pulverização aérea dessas substâncias, Nery mostrou que 32% dos agrotóxicos pulverizados ficam retidos nas plantas, 49% vão para o solo e 19 vão pelo ar para áreas circunvizinhas, impactando inclusive pequenas propriedades que praticam culturas orgânicas.

Pesquisas realizadas em área próxima a unidades agrícolas que fazem pulverização aérea mostram que pátios de escolas, praças e propriedades de agricultores familiares que não utilizam os produtos sofreram diversos graus de contaminação.

A médica também apontou dados da Organização Mundial de Saúde indicativos de que 25% a 30% da carga de doenças e 23 % das mortes estão relacionadas a fatores ambientais. No Estado de São Paulo, algumas áreas em que predominam a produção de cana de açúcar e de laranja que fazem uso intensivo de agrotóxico por meio da pulverização aérea apresentam grande concentração de doentes com câncer.

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