Audiência pública: trabalhadores reagem ao fechamento das fábricas da Ford no Brasil
Audiência pública: trabalhadores reagem ao fechamento das fábricas da Ford no Brasil

Os impactos do fechamento das fábricas da Ford no país foram o tema da audiência pública virtual realizada nesta quarta-feira, 20/1, por iniciativa do líder do PT, Teonilio Barba, e o deputado Emidio de Souza. Empregados da Ford, sindicalistas, representantes de centrais sindicais e deputados estaduais e federais analisaram as consequências da decisão da multinacional americana e as ações de resistência para impedir os enormes prejuízos causados aos trabalhadores e à economia do país.

Diversas propostas de ação foram apresentadas pelos participantes. Entre elas, a mobilização dos trabalhadores para ocupar as fábricas da Ford; ações para a reparação por danos aos trabalhadores da montadora; a restituição pela Ford dos recursos obtidos com benefícios fiscais e creditícios, para a constituição de um fundo público; estatização e nacionalização do patrimônio da Ford no Brasil; instalação de uma CPI para investigar isenções fiscais; suspensão dos acordos de livre comércio com o México.

Barba disse que o objetivo da bancada do PT na Assembleia Legislativa de São Paulo é ampliar o debate sobre o futuro dos trabalhadores e sobre os impactos do fechamento das fábricas da Ford em três cidades brasileiras: Taubaté (SP), Camaçari (BA) e Horizonte (CE).

Segundo o líder do PT, é preciso envolver os três governadores dos estados afetados pelo fechamento das fábricas. “Não podemos repetir a experiência de São Bernardo, na qual o governador João Doria se comportou como um corretor. Deixou a Ford encerrar suas atividades na cidade, causando impacto sobre 10 mil trabalhadores, sem tomar qualquer iniciativa.”

Barba diz que é necessário entender o fechamento da Ford como um escândalo nacional. A empresa, instalada há mais de cem anos no Brasil, recebeu incentivos fiscais e créditos subsidiados bilionários. Não pode simplesmente virar as costas e sair do país, deixando trabalhadores sem seus empregos. Nos cálculos do parlamentar, o encerramento das atividades das unidades fabris vai causar impactos, diretos e indiretos, sobre 120 mil trabalhadores ligados à cadeia automotiva.

 

Desindustrialização continuada

As análises dos participantes da audiência convergiram para um ponto em comum: a saída da Ford do Brasil não é um caso pontual. Para o deputado Emidio de Souza, a desindustrialização vem atingindo, há décadas, a estrutura produtiva do país e de várias cidades brasileiras. Osasco, cidade da qual foi prefeito, é um exemplo. Foi uma das primeiras a ver uma fábrica de fundição da Ford ser fechada. O parlamentar destacou ainda que várias outras cadeias produtivas foram ou estão sendo desintegradas, como as do setor aeronáutico e naval.

“Desde Getúlio Vargas até os governos militares, houve a defesa da indústria nacional. Hoje, não temos plano estratégico de desenvolvimento nacional e retornamos à dualidade entre o Brasil rural e o industrial. Entre os governos promotores do desmonte industrial, o de Bolsonaro é o pior deles. Um governo capacho dos americanos, que concorda com os ataques à soberania nacional. Não haverá política nacional de desenvolvimento com Bolsonaro. A política dele é esta que está aí. Se não reagirmos, estaremos brevemente fazendo audiência pública para outros casos de fechamento que irão surgir. Precisamos criar um comitê de defesa da política de desenvolvimento nacional para pressionar o governo a dotar medidas de proteção à indústria brasileira.”

 

Vigília dos trabalhadores

Desde o anúncio do encerramento da produção de veículos da Ford no Brasil, os trabalhadores da unidade de Taubaté mantêm-se em vigília na porta da fábrica para pressionar uma negociação em torno da reversão da decisão. Na Bahia , os trabalhadores de Camaçari estão dispostos a fazer um movimento de ocupação das concessionárias e da fábrica.

O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Taubaté, Claudio Batista da Silva Junior, disse que a montadora foi desleal, desrespeitosa e mentirosa com os trabalhadores. Ela simplesmente informou que vai fechar suas fábricas no Brasil. “Depois de anos de investimentos do país para garantir as operações da montadora, no primeiro momento de dificuldades, ela decide abandonar o Brasil.”

Claudio Batista disse que, enquanto assistimos à fuga de empresas do setor automotivo, os governos federal e estadual apenas lamentam. “Chegou a hora de o gigante se levantar. O povo precisa lutar por um projeto de desenvolvimento, pois, senão, ficaremos sem nossos empregos.” Ele  pediu aos deputados que cobrem uma posição do governador João Doria, que não recebeu até agora os trabalhadores. A única coisa que o governo de são Paulo nos oferece é um programa de requalificação profissional. Já somos qualificados. Precisamos dos empregos”, frisou.

0 presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Wagnão, considera que o anúncio do encerramento da produção da Ford é uma oportunidade para debater a desindustrialização. Segundo ele, a participação do setor industrial na composição do PIB é de apenas 11%, a menor desde 1946. Dez indústrias fecham por dia no país. Isso mostra que a economia brasileira transita para consolidar a preponderância do setor de serviços, sem ter construído uma base industrial sustentável.

 

Simples consumidor automotivo

Um elemento importante para entender o que está por trás da decisão da Ford é o acordo de livre comércio entre o Brasil e o México, que implicará nova dinâmica no comércio de produtos automotivos. Segundo Fausto Augusto Junior, Diretor técnico do Dieese, o acordo assinado por Bolsonaro inclui a flexibilização dos índices de conteúdo regional e isenção tarifária para veículos produzidos no México. Com isso, a unidade da Ford do México poderá colocar seus produtos no mercado brasileiro sem obstáculos, sem cotas de conteúdo nacional, o que significa a possibilidade de vender modelos produzidos por unidades fabris da Ásia.

Fausto Augusto acrescentou que a negociação da abertura do mercado automotivo faz parte da pauta da bancada do agronegócio, como contrapartida da abertura do mercado agropecuário no México. Desse modo, outras empresas do setor tendem a sair do país. “O Brasil vai ser colocado na condição de mercado consumidor automotivo”, advertiu Fausto.

 

Patrimônio da Ford deve ser revertido aos trabalhadores

Uma das participações mais contundentes da audiência foi a do Desembargador no Tribunal Regional de Campinas, Jorge Luiz Solto Maior, que leu uma nota incisiva da Associação Americana de Juristas – RAMA Brasil. Para ele, o anúncio da Ford do fechamento das fábricas no Brasil foi inesperado, insensível e abrupto. Como se as leis de mercado justificassem toda a perversidade e o desprezo de valores dos direitos humanos e sociais.

A nota diz que “A Ford não é vítima do Brasil, do governo, ou do dito ‘custo Brasil’”. Ao longo de mais de cem anos no Brasil, a Ford teve seus lucros potencializados por medidas de redução de custo, obtida por meio da retração de direitos trabalhistas, como a repressão estatal ao direito de greve, a extinção da estabilidade no emprego, em 1967, e a “reforma” trabalhista, em 2017, e reiteradas isenções fiscais promovidas, sobretudo, a partir da década de 90.

A nota diz que a Ford deve prestar contas aos trabalhadores e trabalhadoras, que lhe possibilitaram a extração de lucros, assim como à sociedade brasileira como um todo, “conferindo aos primeiros a necessária reparação pelo dano e o sofrimento experimentados (visualizados, inclusive, todas as possíveis lesões de direitos ocorridas no passado recente ou mesmo distante), e, aos segundos, restituindo, para a constituição de um fundo público, toda parcela do orçamento público que lhe fora direcionada.”

Solto Maior entende que todo o patrimônio da Ford situado no Brasil não pode ser levado embora e “deve ser revertido aos trabalhadores e trabalhadoras que integraram suas unidades produtivas, para que, caso queiram, desenvolvam nelas uma produção em modelo de auto-gestão ou, simplesmente, os leiloem

CPI dos incentivos fiscais

O deputado federal Vicentinho (PT/SP) anunciou a realização de uma audiência pública na próxima terça-feira, 26/1, na Câmara dos Deputados para discutir caminhos e ações na esfera federal que garantam direitos dos trabalhadores da Ford.

Representantes da CUT e da Força Sindical também devem levar aos deputados federais a proposta de instalação de uma CPI para investigar os incentivos fiscais e revelar à população a transferência de recursos públicos para grandes corporações multinacionais.

Ainda na esfera da Câmara Federal, deve ser apresentado projeto de lei com o objetivo de estatizar e nacionalizar o patrimônio da Ford no Brasil.

Um comentário

  1. 21/01/2021 at 13:07

    […] Audiência pública: trabalhadores reagem ao fechamento das fábricas da Ford no Brasil […]

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